Não tem disponibilidade – nem vontade – para lavar a roupa e a loiça? Em breve, não precisará de se incomodar com tais tarefas nem de pensar em contratar pessoal doméstico.
Dentro de pouco tempo, bastará estar «hiperconectado» e um robô fará tudo o que precisa e deseja.
Quem considera que a viagem digital já chegou ao seu destino, está certamente muito equivocado e pode ser ainda mais surpreendido.
Um conhecido «futurista» – a última especialidade do conhecimento? – assegura que bastarão dois ou três anos para passarmos de um «mundo conectado» para um «mundo hiperconectado». Atrever-me-ia a perguntar: já não estaremos nos umbrais de um «mundo omniconectado»?
Áreas como a saúde, os transportes, a indústria e até a vida familiar irão sentir o efeito dessa passagem meteórica e, porventura, incontrolável.
A agente principal desta transição será a robótica, que se prepara para operar uma verdadeira revolução na sequência da normalização das aplicações da Inteligência Artificial
Adrew Grill, o referido futurista – ou «futurista acionável», como alguns fazem questão de precisar –, assegura que os ingredientes tecnológicos já estão disponíveis.
A novidade estará na forma como serão usados.
A opção dominante inclina-se para a hiperconectividade entre tais ingredientes, com as inevitáveis consequências.
Os homens estão cada vez menos ligados entre si. Mas encontram-se à beira de se verem cada vez mais conectados com esta parafernália de elementos.
Na perspetiva de Andrew Grill, nem teremos de pensar muito na hiperconectividade. Ela irá simplesmente funcionar: «Estará sempre ativa, não sendo necessário preocuparmo-nos com definições ou mudanças».
Os cartões digitais estarão integrados dentro de um qualquer dispositivo que levemos connosco.
Será possível regular minimamente um universo que avança a uma velocidade maior que o esforço de regulação?
O ser humano está crescentemente condicionado por aquilo que foi gerando.
A liderança humana terá condições de se impor num mundo cada vez mais tecnológico?
Ainda iremos a tempo de ter uma tecnologia de rosto humano? Ou não estaremos no limiar de uma humanidade robotizada, isto é, fria, implacável, conectada, desumanizada? Robôs humanóides estão à beira de ser criados. Podem jogar, dançar, tomar conta de uma cozinha e fazer companhia.
Sobreviverá a humanidade a si própria? Não está em equação a destruição da humanidade como espécie. Está, sim, em causa a sobrevivência da humanidade como humanidade. António Damásio avisa: «Se a máquina ganhar autonomia, o futuro é aterrador».
O homem desencadeou a revolução tecnológica. Mas é a revolução tecnológica que está a moldar o homem. Para melhor? Franco Berardi prevê – porventura, excessivamente – que «a humanidade não sobreviverá a este século».
Não esqueçamos uma das maiores lições da história, recentemente descrita por Edgar Morin, um «sage» prodigioso de 104 anos: «O resultado de uma ação pode ser contrário à sua intenção inicial».
A intenção desta revolução digital visou facilitar a atividade humana. Não acabará, porém, por desfigurar a identidade do ser humano?