Na última terça-feira participei na reunião mensal da Fraternidade Nossa Senhora do Sameiro, de que faço parte, no Seminário de Fraião da Congregação dos Missionários do Espírito Santo. Em jeito de desafio, o coordenador do grupo, depois de algumas palavras elementares que proferi, acrescentou que o tema dava um artigo. Respondo à provocação do Dr. José Ferraz, esperando que as linhas que se seguem façam algum sentido, embora não tenha a competência de outros colegas que habitualmente exprimem a opinião neste espaço. Ainda assim, arrisco ensaiar o desenvolvimento que então não fiz por ter sido parcimonioso no tempo empregue na reflexão e preparação prévia do tema, uma aventura que alguém melhor preparado poderá agora considerar, com toda a propriedade, pretensão da minha parte.
Quem pratica a agricultura ou a jardinagem sabe que é preciso ter sementes ou exemplares de plantas, depois semear ou plantar com os cuidados necessários. Os frutos não surgem logo. As sementes precisam de germinar e as plantas “pegar” e ganhar raiz antes da colheita ou do surgimento das hastes e ramos e depois da árvore mais ou menos frondosa. Atentos os trabalhos, os frutos hão-de aparecer a seu tempo. Se a semente não vingar será por não se ter escolhido a melhor terra, o adubo certo ou ter-se esquecido a fundamental e regrada rega. Aqui chegado, não pense o prezado leitor que vou apresentar um tratado sobre plantio caseiro ou de produção de produtos agrícolas. Ainda assim, como corolário do que ficou dito e preparar a mensagem principal deste texto de crónica, cito as palavras de Jesus que nos chegaram por um dos seus apóstolos: “Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce sem [o homem] saber como. A terra produz por si, primeiro o caule, depois a espiga e, finalmente, o trigo perfeito na espiga. E, quando o fruto amadurece, logo ele lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa” (Marcos 4, 27-29).
Na vida, as coisas passam-se mais ou menos da mesma forma. É preciso semear para colher. E, muitas vezes, nem se tem consciência disso, sobretudo, quando não se procura reconhecimento ou vantagem. Exemplos de humildade, abnegação, de desprendimento, de bondade, zelo, gratidão e outras tantas sementes de fraternidade e virtude tendem a dar bons frutos, ainda que possam não aparecer imediatamente. As sementes nem sempre parecem belas, nem sempre são fáceis de conseguir e de fazer produzir. Nem sempre os semeadores vêm o seus frutos, seja porque se mudam da plantação, porque deixam de habitar o mundo dos homens, seja porque não se aperceberam que deixaram a semente cair em terra que a preservou, acarinhou e a fez germinar e dar fruto.
Pode parecer haver uma certa injustiça quando quem entrega todo o seu tempo, o seu esforço, a sua dedicação a uma iniciativa, a um projecto, não veja os resultados e rejubilar com eles. Francisco Libermann, co-fundador dos Missionários Espiritanos, dizia a respeito dos seus confrades que se entregavam à difícil missão em terras africanas nos primórdios da evangelização pela congregação: “eles desbravam o terreno e semeiam com lágrimas e paciência; os que vierem depois, colherão com alegria; eles plantam com trabalho e esforço; os que vierem a seguir, regarão com facilidade e verão com alegria o fruto do que eles plantaram” (Antologia Espiritana, pg 442). Na verdade, quando não existem interesses escondidos ou interesseiros naquilo que se faz, alegadamente aos mais próximos, ao país, aos nossos concidadãos, quem faz o trabalho de semear, de criar as bases de algo solidário, ainda que à custa de suor, de lágrimas e muito tempo despendido, não se importa por serem outros a levar com os louros. Como sabemos, há quem aproveite estes sem os merecer e sem reconhecer que foram outros a fazer o trabalho de sapa para que o resultado surgisse. Acontece numa qualquer comunidade, como na actividade política. Infelizmente, não faltam exemplos. Quem achar que nunca quis só o fruto, que atire a primeira pedra.