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O pónei da Feira dos Vinte

 


 

Menino inteligente e comunicativo, o Gabriel vive perto do lugar onde se realiza a Feira dos Vinte, nutre um carinho especial por animais e gosta de ajudar nas lides agrícolas. Era ainda muito pequenino quando pediu ao avô Vítor um pónei e, em cada Natal que passava, não desistia de voltar a pedir. Pensava que o seu desejo se concretizaria nas festas natalícias de 2025, mas não! E ficou triste...

Ao vê-lo assim, o avô prometeu levá-lo à Feira dos Vinte, o maior acontecimento da terra, de que toda a gente fala, cheio de vozes e sons, de cheiros misturados e de animais vindos de perto e de longe, onde tudo custa pouco, mas vale muito. 

- “Será desta vez que vou ter um pónei?”, questionava-se o Gabriel.

Na ausência de respostas e com alguma ansiedade à mistura, contava os dias que faltavam para a Feira. Era tal a dificuldade que tinha em adormecer que, se dormisse ao relento, teria tempo para contar as muitas estrelas do céu.

Quando o dia 20 de janeiro chegou, depois de uma noite mal dormida, acordou mesmo antes de o sol nascer. O coração batia-lhe depressa, como se já soubesse que algo de especial estava para acontecer. A caminho da Feira, em silêncio e com o coração aos saltos, imaginava o pónei ideal: pequeno, castanho, com uma mancha branca na testa e olhos inteligentes. O avô estranhava tanto silêncio... e sorria!

Quando chegaram, a Feira estava em plena agitação: havia galinhas a cacarejar, vacas a mugir, cavalos a relinchar e vendedores a apregoar os seus produtos. Foram, em primeiro lugar e como se impunha, à Capela visitar S. Sebastião – havia até umas promessas para cumprir – e, só depois, desceram à Feira. O avô apertou com força a mão do neto, com medo de o perder, e o mesmo fez o neto, com receio de não conseguir escutar o que de mais importante o avô pudesse ter para lhe dizer.

- “Gabriel, escolhe o que quiseres”, ordenou o avô, ao fim de algum tempo. Nunca as ordens do avô tinham sido tão suaves nem tão grande a sua generosidade.

Quando olhou para os cavalos imponentes, viu o seu amigo Rúben que também por ali andava a acariciá-los. Porém, e para estranheza do amigo, o Gabriel não quis conversa. Estava focado no seu objetivo maior: escolher um pónei, realizar um sonho antigo e satisfazer o seu maior desejo. Procurou os póneis que estavam num canto da feira, presos a uma cerca de madeira. Havia-os de todas as cores: pretos, cinzentos, malhados. Olhou um a um, mas nenhum parecia responder ao chamamento silencioso que sentia no peito. Até que se deparou com um que estava algo afastado dos outros. E não é que correspondia por inteiro à sua imaginação? Castanho, pequeno, com uma mancha branca na testa, com um olhar tímido, mas atento e inteligente, como se guardasse segredos antigos e tivesse histórias para contar.

Quando se aproximou, o pónei esticou o focinho e cheirou-lhe a mão. Fixando-o nos olhos, pareceu ao Gabriel ver ali refletida toda a feira, não propriamente como ela era, mas como até os póneis a viam e até sonhavam que fosse. Naquele instante, depois de esboçado um sorriso curto e nervoso, soube que era aquele. Um pouco à distância, o avô observava em silêncio, como se já tivesse entendido a escolha, antes mesmo de o neto falar.

– “Que lindo! É este, avô”, exclamou o neto, com voz firme.

O negócio foi rápido, como costumam ser os acordos feitos com o coração. Quando saíram da feira, o pónei seguia atrás deles, decidido e obediente, como se sempre tivesse feito parte da família. No caminho de volta a casa, o Gabriel não parava de falar. Contava ao avô tudo o que ele e o pónei iam fazer juntos: passeios ao amanhecer, maçãs roubadas do cesto da cozinha, corridas imaginárias pelos campos até se fazer noite. O avô escutava, orgulhoso, sabendo que esse dia ficaria guardado para sempre na memória do neto.

Quando a noite caiu e as luzes se apagaram, o Gabriel sentia o chão a vibrar de recordações: cheiros, risos, animais e pessoas. A Feira acabara, com muita pena sua, mas mantinha-se viva nas suas memórias. Quis deitar-se na palha ao lado do seu pónei, mas os pais não deixaram e foi, por isso, contrariado para o seu quarto. Rapidamente adormeceu de cansaço, pois o dia tinha sido intenso e de emoções fortes...

Quando, ao amanhecer, acordou, lembrou-se de ter sonhado que alguém lhe roubara o pónei. Sobressaltado, foi, de imediato, ao estábulo, com o coração a bater forte. 

- “E se é verdade? Morro de desgosto”, balbuciou timidamente o Gabriel, não fosse isso acontecer só por o ter pensado.

Quando chegou ao estábulo e percebeu que o pónei estava lá, sentiu-se aliviado e leu nos olhos do animal uma felicidade indescritível por ter encontrado um dono do seu tamanho e com as suas qualidades: meigo, carinhoso e aventureiro. Apesar de a manhã estar gélida e chuvosa, resolveram sair, passaram pela casa do Rúben e os três foram passear pelos campos. Tinha começado uma aventura a que nem o anoitecer desse dia pôs fim.

E assim, na agitação da Feira dos Vinte, nasceu uma amizade que não se comprou com dinheiro, mas com um simples toque de confiança entre um menino e um pónei que se tornou o seu melhor amigo, o companheiro das suas aventuras e a razão de ser da sua vida.


 

* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


 

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

26 janeiro 2026