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Mais e melhor habitação

 

 

Parece-me haver na Cidade dos Arcebispos, como em todo o país, grande vontade no que ao debelar da crise de habitação concerne, no sentido de colmatar as carências que se verificam. Não porque não haja casas suficientes, mas por não haver uma política de fomento habitacional, bem delineada, nem governantes que ponham freio ao Alojamento Local e à existência de prédios devolutos, o em situação de abandono. A começar pelo próprio Estado que prefere ter os seus imóveis desocupados e a degradarem-se, do que vendê-los, ou arrendá-los.

Depois, com esta pressa na aprovação do Plano Diretor Municipal com vista à construção de casas em força, como se pretende na nossa Bracara Augusta, o que mais julgo importar é a quantidade. Isto é, produzi-las por forma a irem para o mercado a preços baratinhos. Mas como nos dias de hoje as pechinchas escasseiam, há que ter em atenção não só as boas práticas construtivas, como a especificidade e a robustez dos materiais a aplicar. Caso contrário, se for com esgotos estrangulados, ou ineficiente, canalização, eletrificação, gás e água mal montados, etc. será ‘um bicho de sete cabeças’ para quem as habitar.

Braga, nos primórdios da consolidação do Poder Local em Portugal teve o seu boom de construção onde, mesmo a coberto das regras estabelecidas, se cometeram diversas irregularidades. Tais como: urbanizações mal-amanhadas, cujas construções não só não atenderam aos predicados antissísmico; privacidade e existência de caixas d’ar; isolamento térmico e acústico; coberturas de proteção contra as infiltrações de humidade, provenientes da chuva, etc. 

Prédios implantados em zonas desprovidas de espaços para as crianças desanuviarem da parca permilagem em que vivem, de arruados generosos para fluição não só do trânsito automóvel, como dos transportes urbanos, de passeios e passadeiras dignas para peões e aparcamento das viaturas dos moradores. É evidente que investir em tudo isso não faria empreiteiros tão felizes, mas teríamos hoje polos habitacionais bem conseguidos.

Foi um tempo em que primou a falta fiscalização à qualidade nas habitações. E, se bem me recordo, casos houve em que algumas delas, antes de ficarem concluídas, ruíram. E outras não só sofreram inclinação e abriram fendas, como ficou posta em causa a coesão estrutural e segurança do edificado por rateio nos materiais. 

Lembro-me de ter estado, por essa altura, a conversar com um vizinho meu que me contou ter acabado de adquirir a um empreiteiro bracarense o esqueleto de um prédio para 24 apartamentos – numa aprazível zona citadina – com igual número de lugares de garagem, para posterior negócio. 

Só que achou perigoso meter tantas viaturas no piso do rés do chão, sem consistência para tal, pelo que resolveu fazer a garagem na cave com entradas pela rua de trás do prédio. Meteu lá a escavadora e, por descuido, bateu com ela num dos pilares, o que fez a estrutura oscilar. Assustado, acabou por me perguntar se conhecia um Técnico d’Obras, capaz de avaliar a situação. Combinei com ele e lá fomos os três ver o empreendimento. Sem dúvida, os pilares estavam espetados na terra sem a devida cintura de travação. 

Incomodado, o investidor foi à Câmara Municipal solicitar a consulta do caderno de encargos, o que lhe foi negado. Preocupado, foi ter com o seu Advogado que logo chamou os responsáveis pelo projeto a capítulo. Ao que, estes, persentido sarilhos, se prontificaram a repor os 500 contos do betão em falta. 

Na conversa com o Técnico d’obras ficamos a saber existirem situações similares na Cidade dos Arcebispos. Algo que explica as fortunas que a empreiteirada emergente conseguiu à custa de tais habilidades no imobiliário. 

Aprovado o PDM, é altura de ser feita uma reflexão sobre o atrás descrito. Vejamos, pois, se no consulado do atual Edil-mor Braga irá ter mais e melhor habitação. Mesmo assim, dada a falta de estruturas prévias, antevejo mais despejos na ETAR, mais carros nas ruas e trânsito caótico.



 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

26 janeiro 2026