Temos vindo a assistir, entre os mais novos, a uma vaga de candidatos em concursos televisivos e não só de pretendentes a jogadores/as de futebol e ainda em programas de música, como executantes de instrumento ou na categoria de cantores/as. Dá a impressão que estas duas áreas fascinam os mais novos e entretêm os mais velhos. Quase cheira a dinheiro barato, rápido e possivelmente desonesto…
1. Quais poderão ser as razões para que estes dois setores de atividade tenham tanto interesse para os mais novos? Não serão antes os progenitores que os/as influenciam para tais escolhas? Se forem estes, que motivos poderemos encontrar para tais pretensões? Entre a fama (pretensamente barata) e o dinheiro (ansiosamente facilitado) já terão a noção do esforço para atingirem tais desideratos? Não seria recomendável que os resultados atendessem às exigências mais consentâneas com os objetivos? Não se estará a construir uma sociedade alicerçada na fachada (vaidade) e não no trabalho (atual e futuro)? Numa palavra: não seria aconselhável que os mais novos consciencializassem que, só no dicionário, é que sucesso aparece antes de trabalho?
2. Múltiplas outras questões poderíamos colocar, numa aprendizagem conciliada com a necessidade de discernirmos estes nossos sinais dos tempos. Com efeito, o futebol agora mais do que antes tornou-se o aliciante de muitos dos mais novos e cativante para os mais velhos (pais, educadores, associações/coletividades/clubes e na sociedade em geral). Desde que tenha jeito para dar uns pontapés na bola, logo desperta a tentação de colocá-los/las em espaço onde possam ser vistos. Há pais/educadores que inscrevem os filhos de sete ou oito anos em ‘academias’, em ‘clubes’ ou mesmo entregam-nos a quem possa fazer deles jogadores de sucesso. Muitas das atividades escolares saem prejudicadas só porque a competição é grande, enérgica e quase desumana. O fascínio dos ‘ronaldos’ – sobretudo na linha dos proventos ansiados – pulula em qualquer canto, mesmo sem olhar a meios para atingir os fins. Com que relativa facilidade se distorcem as competências de tantas crianças, desde que vislumbre uma nesga de fazer dele/dela jogador/a de sucesso, a curto ou a médio prazo. Dá a impressão que alguns dos adultos envolvidos neste assunto pretendem mais ser ‘a dona Dolores’, como mãe de uma vedeta ganhadora de muito dinheiro…
3. Algo idêntico no que toca ao mundo da música: desde que seja capaz de emitir uns trinados, ei-los que saltam para o palco em busca de fama, de sucesso e, por que não, de bons proveitos. Os pais e educadores esfalfam-se para conseguirem colocar os seus rebentos nalguma escola de música, nalgum espaço que dê nome e possa ajudar a brilhar o mais rápido possível… A participação em concursos televisivos ou em programas que selecionem para virem a ser cantores esgotam a capacidade de participação. As pequenas vedetas não têm tempo para serem crianças no tempo devido e na forma mais normal possível….
4. Será que quem atira para a arena do futebol ou para o palco dos espetáculos já se apercebeu do mal que estão a fazer às atuais crianças? Treinadas para vencerem, como lidarão com os insucessos e as derrotas naturais nestes como noutros campos de competitividade? Não será que muitos dos que não conseguem atingir os objetivos almejados têm de lidar com o trauma do fracasso antes do tempo devido? Quem se queira encontrar nos melhores, isso não pode gerar pessoas ressentidas, ciumentas, invejosas, enganadoras e enganadas. Com efeito, os génios podem surgir, mas não podem fazer deles vedetas sem alma nem coração, só porque lhes é incutido o desejo do sucesso a qualquer preço, mesmo que possa ser usada a desonestidade ou até a baixeza moral/ética…
5. Eis o que nos disse o Papa Leão XIV, no ‘Angelus’ de 18 de janeiro passado: «Realmente, muitas vezes é dada uma demasiada importância à aprovação, ao consenso e à visibilidade, a ponto de condicionar as ideias, os comportamentos e os estados de espírito das pessoas, causando sofrimento e divisões, criando estilos de vida e de relacionamento efémeros, dececionantes e aprisionadores. Na realidade, não precisamos desses “substitutos de felicidade”».