A palavra “sinodalidade” entrou no vocabulário eclesial com uma força nova, mas corre o risco de se tornar um slogan vazio se não for ligada, de modo realista, à questão das lideranças. A Igreja sonhada pelo II Concílio do Vaticano e relançada pelo Papa Francisco como “Igreja em saída” não é uma comunidade sem pastores, sem ministérios e sem processos de decisão, mas um corpo vivo onde autoridade e participação se entrelaçam ao serviço do Evangelho. Se a sinodalidade é um tesouro, então exige ser guardada e cultivada por lideranças competentes e capazes de gerar confiança, promover processos e articular carismas num mundo líquido e em rede.
Na modernidade marcada pela fluidez dos vínculos e pela lógica em rede, a autoridade já não se impõe apenas a partir de um lugar cimeiro no organigrama. Ela é cada vez mais relacional: nasce de percursos partilhados, de escuta paciente, de capacidade de nomear o que está em jogo e de abrir caminhos possíveis. Também na Igreja, o Papa, o bispo, o pároco, o superior ou o coordenador de um movimento não podem ser apenas gestores de rotinas ou guardiães de regras; são chamados a ser tecelões de comunhão, promotores de corresponsabilidade, guardiães de um horizonte missionário num contexto de incerteza e fragmentação.
Por isso, é ilusório opor sinodalidade e liderança, como se caminhar juntos significasse não precisar de quem anime, presida e responda perante o Povo de Deus. A história recente mostrou, com dureza, o que acontece quando a liderança se fecha em lógicas clericais e autorreferenciais: abusos de poder e de consciência, opacidade na gestão, comunidades feridas na sua confiança. Mas a resposta evangélica não é a abolição das lideranças, é a sua conversão. Uma Igreja sinodal precisa de líderes que aceitem ser os primeiros a descer, que exerçam a autoridade como serviço, que se deixem interpelar pelas vítimas e pelas periferias e que se submetam a mecanismos claros de avaliação e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, a sinodalidade não é apenas uma exigência dirigida aos “líderes”. Cada batizado, pelo próprio facto de o ser, participa da responsabilidade pela vida da Igreja. Compreender o papel das lideranças no ecossistema eclesial significa, então, reconhecer que não há decisões neutras: ao pedir menos clericalismo, as comunidades são chamadas também a oferecer mais participação qualificada, mais disponibilidade para assumir tarefas, mais competência teológica e pastoral. Sem assembleias informadas, sem conselhos pastorais reais, sem laicado adulto, os melhores modelos de liderança servidora acabam por ficar bloqueados na prática. O Sínodo sobre a Sinodalidade (2021-24) evidenciou a tensão fecunda entre a escuta inclusiva e plural do Povo de Deus e a necessidade de ministérios e discernimentos estruturados, afirmando que a sinodalidade não elimina a assimetria ministerial, mas procura impedir que ela se converta em domínio, transformando a autoridade em serviço ao crescimento comum.
Perceber o papel das lideranças no ecossistema eclesial é, em última análise, uma questão espiritual. O que está em jogo não é apenas a arquitetura de conselhos e órgãos, mas a imagem de Deus que habita a vida concreta das comunidades. Se Deus é comunhão de pessoas, então a Igreja é chamada a refletir, na sua forma de decidir e de se organizar, algo desta dinâmica trinitária: unidade sem uniformidade, diferença sem rutura, autoridade que não apaga a liberdade, e participação que não dissolve a responsabilidade. A sinodalidade é o nome contemporâneo deste sonho antigo; sem lideranças evangélicas e sem um povo corresponsável, ficará reduzida a uma palavra bonita em documentos bem-intencionados. Com líderes que servem e comunidades onde cada um assume a sua parte, pode tornar-se caminho real de conversão, de credibilidade e de esperança para a Igreja num mundo líquido e em rede.