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Ser ou não ser: Pode-se ser meio democrata?

Os regimes políticos constroem-se a partir das particularidades que existem em cada nação, mas também pela oposição face àqueles que se propõem substituir e pela influência que as nações dominantes exercem no ideário político e coletivo de um país. Nesse pressuposto, a Democracia resultante do 25 de Abril é, para todos os efeitos, em primeira medida, uma afirmação da liberdade plena e de todas as consequências que isso acarreta, mas também uma negação da forma de ser e de fazer do Estado Novo.

Ou seja, numa dimensão positiva, a nossa democracia assenta num princípio de liberdade e de respeito pela dignidade humana. Na sua dimensão negativa, afirma-se como o oposto de tudo aquilo que o Estado Novo representou durante a sua vigência: repressão, autoritarismo, violência e principalmente ideias absolutas, sem possibilidade de contraditório.

Neste sentido, há apenas dois caminhos que cada um de nós, na sua subjetividade e intimidade política, pode perspetivar na sua consciência face ao que acontecerá no dia 8 de fevereiro de 2026. Ou somos seres democráticos por inteiro, ou então abrimos a porta àqueles que afirmam que quem faz falta é Salazar, a Ordem, a Pátria e a Família. Não há outra forma de o dizer: esta não é uma luta política face a posicionamentos partidários; é uma luta entre formas diferentes de ver o mundo e o nosso regime político. É uma luta entre democratas e extremistas, mas também uma luta em que cada um de nós tem de perspetivar se quer viver num regime em que o Presidente da República tem como ideais verdades contestadas – muitas vezes com as quais eu próprio não concordo – ou num regime em que o Presidente se afirma como detentor da verdade.

É perante este impasse que estamos. Numa democracia, temos de ser por inteiro, porque a liberdade é sempre difícil de entender e, muitas vezes, até de aceitar, mas a nostalgia do absoluto é sempre a brecha que nos move para o autoritarismo. Vivemos uma reestruturação do nosso sistema político. Cada vez mais, a esquerda concentrar-se-á em partidos pró-europeus, deixando de vez um comunismo morto com a queda do muro. O centro oscilará entre candidatos dos dois grandes partidos, porque são os únicos que continuam a oferecer uma visão moderada e com assento na realidade portuguesa. E continuará a crescer o extremo que, mais do que classificado como direita, deverá ser analisado através do ressentimento e da falta de esperança que as nossas políticas geraram nos últimos anos.

Os eleitores do Chega são hoje, em muitos casos, os eleitores do PCP que viam as suas vidas sem oportunidades e estagnadas em salários baixos: as periferias que alimentam as grandes cidades a preços baixos e fazem viagens de mais de três horas são hoje o eleitorado dessa extrema que, produzida pelo sistema, se diz contra esse mesmo sistema. Não devem existir ilusões nem a ideia de que tudo isto não é culpa de um centro político que deixou de criar oportunidades e preferiu viver de guerras culturais, esquecendo que a liberdade, mais do que um exercício teórico, é um ideal prático que tem como mote, no nosso sistema político, o elevador social.

Somos nós, os moderados, culpados por falta de comparência perante aquilo que tem vindo a acontecer nos últimos anos, porque ficámos confortáveis nos nossos iPads, em jantares em restaurantes com conceitos cada vez mais inovadores e em viagens baratas, sem pensar nas consequências de querer tudo e nada, sem querer trabalhar civicamente por isso. Mas, mais do que nós próprios enquanto país, existe uma culpa coletiva europeia que se perdeu na falta de unanimidade e que, de repente, se tornou uma máquina burocrática sem imaginação e sem rasgo político.

Vivemos não uma crise de identidade, mas uma crise de soluções económicas inovadoras e de coragem para aprofundar o nosso sentido de união. Pensar, por exemplo, na crise da habitação implica refletir sobre o impacto de medidas aduaneiras a nível europeu, mas também perspetivar um grande programa de comércio, com redução de impostos, ou até mesmo uma união total em matéria fiscal. Tudo isto são hipóteses, mas a verdade é que a solução para o nosso dilema democrático passa pela Europa e todos os europeus precisam de aprofundar a sua cidadania comum, sem nunca esquecer as suas especificidades culturais, históricas e sociais.

No entanto, este é o momento para escolher no imediato. É um momento em que cada um de nós deve definir-se e dizer se quer mais democracia ou um caminho alternativo. Uma frase como “Três Salazares” é incompatível com a liberdade. Na parte que me toca, perante todas as afirmações de absolutismo, escolherei sempre o caminho da liberdade individual e esse caminho, no dia 8, é representado por António José Seguro.

Há justiça poética na forma como aqui chega, passando por cima daqueles que se esqueceram do que é a moderação e alimentaram o monstro do extremismo para viverem sentados na cadeira do poder e esse foi António Costa e os seus amigos. No dia 8, o seu silêncio dos últimos dez anos vencerá todos aqueles que nos trouxeram até aqui e os que querem um destino não democrático. 



 

Diogo Farinha

Diogo Farinha

22 janeiro 2026