Ainda não há vencedor, embora se presuma quem possa vir a ser. Domingo passado foi apurado apenas o grande perdedor, curiosamente um não concorrente. É verdade que nas coisas da democracia não se pode considerar uma eleição como um jogo, a não ser que os intervenientes a considerem como tal e façam por isso, mas houve quem fugisse à regra. Depois do apuramento de resultados (provisórios ainda) os candidatos menos votados foram-se declarando responsáveis pessoais pela derrota de cada qual quando, efectivamente, apenas não alcançaram os seus objectivos. As sondagens foram manifestando o quanto as candidaturas valiam para os portugueses, tendo as mesmas sido confirmadas nas urnas na sua grande maioria, apenas afectadas por transferências de votos nos últimos dias antes do acto eleitoral e, pelos vistos, no próprio dia da eleição, quiça, dentro das cabines de votação.
Montenegro foi o único perdedor porque apoiou o candidato do seu partido, deu ordem à estrutura partidária para entrar na campanha, desde deputados a autarcas, esteve presente com membros do Governo e discursou em vários momentos da campanha do candidato e mesmo assim saiu-se mal. Alimentou a ganância de uma hegemonia de instituições e poder, na realidade, tal como outros o fizeram antes, mas perdeu. Em bom rigor, estatelou-se: o seu candidato ficou em quinto lugar com uma taxa de preferência irrisória. Na verdade Montenegro foi o único grande perdedor. É verdade que outros líderes partidários também apoiaram os seus candidatos, mas Montenegro é primeiro-ministro e devia ter andado mais recatado durante a campanha e mais concentrado na governação, ainda mais porque não são poucos os problemas que precisa de resolver, alguns com a máxima urgência. Os portugueses assim o reclamavam.
Está provado o que deixou subentendido o ex-líder do Iniciativa Liberal e também candidato quando chamou a atenção do líder do Partido Social Democrata para o erro que cometeu quando escolheu a personalidade do partido que representaria a força partidária com maior representação parlamentar na actualidade. Um casting mal feito leva sempre a maus resultados. Foi o caso. Tal levou a que muitos dos militantes sociais democratas discordassem da escolha do seu líder e fizessem tábua rasa das suas instruções, preferindo outras escolhas. Pode ser que parte destes não voltem a alinhar-se ideologicamente com o partido, pelo menos, com o actual líder, o que sempre pode acontecer ao longo do tempo de militância de um filiado.
Como consequência disto, e por mais que se diga que o que aconteceu foi apenas por conta das eleições presidenciais, Montenegro deixou o Partido Social Democrata numa encruzilhada ou ainda pior, entalado entre um partido que pretende ser um novo agregador da direita – ambição não lhe falta – e um partido tradicional disposto a conquistar votos ao centro. Não se consegue, por enquanto, avaliar a dimensão total dos danos, sendo certo que as próximas três semanas vão deixar em pior estado o partido que governa e tem actualmente a maior bancada parlamentar. Montenegro está fragilizado e não pode culpar ninguém a não a si próprio. As máquinas socialista e do Chega vão encarregar-se de mais estragos, nomeadamente, com o prolongamento da campanha eleitoral, durante a qual os dois partidos que lutarão pelo seu representante em Belém não deixarão de criticar o Executivo. Ambos ganharão ascendência, ainda que informal, para desancar em quem se tem atrasado no cumprimento das promessas feitas aos portugueses. Apesar do Partido Social Democrata ter deixado de estar presente na corrida presidencial, não vai estar ausente do discurso dos candidatos e dos partidos que os apoiam. Montenegro que se prepare!