Desde há mais de duas décadas e meia que, em Portugal, vimos a ser brindados com programas televisivos assim denominados de ‘reality show’, como um género de programa de televisão baseado na vida real. Podemos falar de ‘reality show’ sempre que os acontecimentos nele retratados sejam fruto da realidade e os visados da história sejam pessoas reais e não personagens de um enredo ficcional… Quase sem nos termos dado totalmente conta algo mudou no trato das pessoas umas com as outras e, sobretudo, na exposição da sua vida privada e/ou pessoal… Tentemos avaliar – sem preconceitos – algumas mutações.
1. O termo ‘reality show’ é conhecido por mostrar, de forma simulada e ensaiada, uma realidade. Em tais programas, há roteiros a serem seguidos e os participantes têm que resolver problemas ou apenas conviver com outros participantes…Os chamados ‘realities shows’ entretêm as pessoas com a reação dos seus participantes apenas viverem um cotidiano ou realizarem alguma prova.
Portugal tem uma vasta lista de ‘realities shows’ populares, dominados por formatos com muitos deles explorando formatos de convivência, segredos ou encontros amorosos, variando entre o entretenimento e a competição por prémios.
Eis uma breve lista de ‘realities shows’, em Portugal: Big Brother com várias edições (famosos, desafio final, etc.), Casa dos Segredos, A Quinta (sob diversas designações), 1.ª Companhia…Acorrentados, Masterplan, Quem quer namorar com o agricultor, Casados à Primeira Vista, Confiança Cega…
2. Diante de tantos programas desta natureza em Portugal não podemos fazer-de-conta que nada nem ninguém mudou. Quantos terão sido os concorrentes/participantes? Quem são e de onde vieram tais personagens intervenientes? Quais as razões que levam tais pessoas – umas antes anónimas e outras mais ou menos conhecidas – a entrarem neste tipo de programas? Que valores – ético/morais, económicos e sociais – envolvem tais programas? Estes programas (mais televisivos e em rede social) têm tido influência na vida (normal) das pessoas? Depois de participarem nesses programas os ‘atores’ foram acompanhados na sua vida pessoal, familiar e social? Não haverá alguma manipulação, por parte de quem produz tais programas, ao fomentar gastos de participação no apoio (pseudo-votação) aos concorrentes? Os prémios prometidos e dados não terão sido já pagos pelos telefonemas-de-valor-acrescentado subjacentes aos programas? Nalguns casos não se sentiu que – particularmente os mais conhecidos – a presença em tais programas não era uma espécie de relançamento da ténue carreira? Não se têm vindo a acrescentar ingredientes – em especial nalguma malcriadez – mesmo noutro tipo de programação televisiva e de redes sociais, como nas discussões políticas, dentro e fora do Parlamento? Até que ponto tais programas de ‘reality show’ têm favorecido um certo abaixamento ético/moral de tudo e de todos?
3. Vejamos alguns destes aspetos, tentando deixar mais questões do que encontrarmos afirmações e evitando o mais possível quaisquer insinuações sobre o caráter dos participantes.
* O aparecimento destes programas televisivos coincidiu com a emersão de vários escândalos de âmbito ético-sexual na nossa sociedade. Os ‘realities shows’ terão distraído ou agravado o ambiente social, que se foi crispando com acusações, com surpresas e com a queda de muitas máscaras quanto a setores – antes conceituados – da nossa sociedade.
* Muitos dos ditos valores tradicionais e de instituições de referência – Igreja, família, defesa dos mais novos e da função do Estado – tremeram com tais escândalos e isso fez modificar os comportamentos. Aqueles programas parece que contribuíram para repensar tantos dos intocáveis, alguns deles que até tinham sido figuras gradas no meio televisivo…
* Concomitantemente vimos surgirem programas de novos valores no âmbito da música, da representação teatral/telenovela e mesmo nos meios de comunicação social… escrita, falada e visualizada. Os ‘realities shows’ abriram portas e janelas, sendo preciso dar tempo ao amadurecimento de todos…
* Num tempo ávido de situações de desconformidade com o normal alguns ‘realities shows’ como que quebraram um certo cinzentismo do país e obrigaram os responsáveis das instituições colocadas em avaliação a viverem mais na verdade intra e extra… agora e no futuro.
4. Numa palavra o quarto de século que vivemos foi (é) rico de exigências de todos e para todos!