Quando eu era miúdo andava sempre, como se diz na gíria, de tacha arreganhada. De tal forma, que havia quem me dissesse mais parecer um maluquinho. Mas hoje, quem não se juntar ao grupo coral da risota, sujeita-se ao repulso do mesmo. Se o caro leitor acha que não é assim, pense por que razão vemos tantos dentes brancos como a neve, bem alinhados e uniformes, como fator de inclusão. Para isso é que proliferam as Clínicas Dentárias em franca expansão no nosso país. E quem não gosta de ver uma cremalheira resplandecente? Eu cá por mim gosto e, até, acho saudável. Cito, a propósito, uma vizinha minha que tinha os dentes encavalitados e, de repente, surgiu com uma dentuça bem implantada. Dei-lhe os parabéns por já poder sorrir à-vontade, só que me respondeu: pois, mas é graças ao custo de um “Mercedes” que trago na boca!
Pois bem, raro é o programa televisivo de entretenimento em que não se use e abuse das risadas, ao ponto de me interrogar sobre se o que está a ser exibido e dito as merece. Basta assistirmos, por exemplo, ao “Isto é gozar com quem trabalha”, de Ricardo Araújo Pereira, para nos inteirarmos de como os espectadores se riem por tudo e por nada. Ou seja, ainda o humorista não acabou de dizer a frase e já intermináveis gargalhadas e aplausos ecoam no estúdio que até cansa. O que me faz adivinhar que a plateia ali presente é, previamente, paga para isso. Ou será que há algo estranho que faz levar os cidadãos a uma espécie de histeria coletiva do riso por algo que, por vezes, nem me faz sorrir?
Com efeito, foi ao ler o JN de 5 de janeiro, último, que se me fez luz sobre o fenómeno ao deparar-me com a notícia do consumo acelerado de “droga” do riso. A qual, segundo o referido jornal, é vendida nos eventos, bairros e ruas, dos mais variados locais ao preço da uva mijona. Onde abundam as botijas de Óxido Nitroso, conhecido como gás hilariante, cujo custo de cada balão custa uns módicos 50 cêntimos, que proporciona várias doses de euforia. É que o “negócio do riso”, apesar de proibido, só nos primeiros 9 meses de 2025 a GNR aprendeu sete vezes mais botijas dessa droga recreativa, do que no ano anterior. Produto do foro artificial que provoca não só desequilíbrio emocional, como arruína o sistema neurológico dos consumidores.
Mesmo sendo um produto incolor e inodoro, utilizado no setor automóvel, na cozinha e indústria farmacêutica hospitalar, tal gás só pode ser usado sob supervisão profissional. E embora possa ser adquirido nas plataformas ‘online’, o seu portador fica sujeito aos ditames da Lei, dado ser perigoso para os humanos quando usado em excesso. Tonturas, cefaleias, formigueiro e desmaio são alguns dos principais sintomas que provoca. E o seu consumo regular e intensivo pode provocar danos graves ao nível do sistema nervoso, com fenómenos de neuro-toxidade, alteração na memória e outras patologias.
Tudo isto para dizer que uma coisa é ser-se bem-humorado e sorrir no momento devido, outra é ir atrás do rebanho que berra e solta gargalhadas por algo sem graça nenhuma, só porque não quer ser acusado de sisudo. Recordo o saudoso ator Raul Solnado, um comediante que tinha o dom de fazer rir sem dizer palavrões nem ofender quem quer que fosse. Algo que não vem acontecendo com alguns dos nossos humoristas atuais da ordinarice, sobretudo os da ‘Stand-Comedy’ que já se têm sentado no banco dos réus, acusados de ofensa ao bom nome, integridade moral e intelectual de quem os processa.
No entanto, nem sempre muito riso é sinal de pouco siso. Lembro a audiência concedida pelo saudoso Papa Francisco a um grupo de humoristas, dizendo-lhes: “rir é o melhor antídoto contra o egoísmo e o individualismo e ajuda a quebrar barreiras sociais; a diversão e o riso são fundamentais para a vida humana. Pelo que no meio de tantas notícias sombrias, aqueles que têm o poder de espalhar o riso devem sentir-se abençoados por Deus”. Por isso, parafraseando a cantiga de Jorge Palma:” deixa-me rir”.