A Feira dos Vinte, na Vila de Prado, é uma das mais antigas e emblemáticas da região do Minho. Esta feira multissecular remonta aos inícios do século XIV1, ao reinado de D. Dinis, o Lavrador, que instituiu, no seu reino, inúmeras feiras francas, com o intuito de valorizar e promover a agricultura. Tem, por isso, mais de 700 anos de história! Pensa-se que tenha conhecido um impulso significativo durante a primeira vaga da peste negra, em 1353, com os devotos de S. Sebastião a pedirem a proteção do Santo, ainda hoje invocado como defensor contra a fome, a peste e a guerra.
Sendo, na sua origem, um mercado de troca e venda de animais – inicialmente, burros, depois gado, em geral –, começou por chamar-se “Feira dos Burros” ou “Feira das Trocas”, sendo este ainda hoje o seu principal ex-libris. O facto de ocorrer no dia 20 de janeiro fez com que a designação “Feira dos Vinte” se impusesse e, por ser a primeira do ano, adquirisse grande relevância, por nela se fixar o preço do gado para o resto do ano, na região do Minho e não só.
Em tempos idos, os mercadores, vindos de todo o país e até da vizinha Galiza, chegavam de véspera, atavam os burros a um sobreiro2 e, nos restaurantes e casas de pasto da terra, degustavam as papas de sarrabulho, os rojões e o vinho verde da região. Era a “noite das provas”, uma tradição que ainda hoje se mantém e que, entretanto, foi revitalizada, em 2019, com a criação da Confraria Gastronómica das Provas da Feira dos Vinte. Alguns dos seus elementos promovem, todos os anos, uma visita a determinados restaurantes da terra para as provas e para se encontrarem com os amigos que, por ali, jantam e confraternizam.
Porque a feira acontece no dia 20 de janeiro, a vertente religiosa tem nela o seu lugar, mediante o cumprimento de promessas e a celebração de uma missa em honra de S. Sebastião, muito venerado na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, situada a norte do Largo da Feira e sobre uma mole granítica que, segundo uma lenda popular, se estende, por debaixo de terra, até ao leito do rio Cávado e serve de fundamento sólido para a ponte filipina que, em 1616/1617, aí foi construída.
Por razões diversas, há uma década atrás, a feira estava a definhar. Em boa hora, a Junta de Freguesia, com o apoio da referida Confraria Gastronómica, assumiu o propósito de a revitalizar. E foi o que aconteceu em 2020, com a introdução de concursos e de um programa recreativo mais amplo e variado. Foi também nesse ano que, no fim da missa, começou a fazer-se a Procissão de S. Sebastião e a simultânea bênção dos animais. É certo que a pandemia atrasou o processo, mas não o parou. Desde 2022, a feira tem vindo a crescer e a afirmar-se como o maior evento da Vila de Prado e arredores, assim como um dos mais significativos do concelho de Vila Verde.
Muito mais do que uma feira, este acontecimento é uma referência da identidade rural e cultural da região, onde se encontram as tradições agrícolas com tudo o que carateriza uma festa popular: comércio, gastronomia e espetáculos. Para além da feira de gado e troca/venda de animais (gado bovino, caprino e cavalar), o programa contempla concursos pecuários e exposição de raças; animação cultural e recreativa, espetáculos equestres, gastronomia, concertinas, folclore e música popular. Neste ano, apresenta mais uma novidade: desfile e gincana de tratores.
É certo que, nos dias de hoje, o mundo rural está a perder relevância e que as normas sanitárias são cada vez mais rígidas. Também é uma evidência que as autoridades fazem um controlo cada vez mais apertado, a ponto de criarem a perceção de excesso de zelo (“querem acabar com a feira” é o comentário que mais se ouve). A feira, contudo, não perde a sua essência rural e continua a atrair milhares de pessoas e a dinamizar a economia local, conferindo vitalidade às tradições do mundo agrícola e da gastronomia minhota. Para além disso, afirma-se como um lugar de encontro e de partilha de vida, saberes e sabores para aqueles que vivem da agricultura e não só. São também muitos os pradenses que, vivendo fora da terra que os viu nascer e crescer, aproveitam este momento para aí se reencontrarem em sadio convívio e recordação dos tempos de outrora.
Em síntese, a Feira dos Vinte é um dos emblemas maiores da cultura rural minhota, da agricultura, da comunidade local e dos usos da região, sendo, ao mesmo tempo, um dos maiores palcos de encontro e de convivência humana que, todos os anos, atrai a Prado muitos e diversificados visitantes. É, por outro lado, um acontecimento que leva mais longe o nome da Vila de Prado e a hospitalidade das suas gentes. Não posso, por isso, deixar de convidar os meus leitores a constatar in loco tudo aquilo que aqui lhes é dado ler.
* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
1 1307 é a data frequentemente apontada para o seu início.
2 É daí que vem o convite que, na brincadeira, se faz aos amigos: “Aparece em Prado, no dia 20 de janeiro, pois já reservei um sobreiro para ti”.