O encerrar de 2025 não representa apenas o fim de mais um ciclo de 365 dias, mas antes o início de um novo ciclo político, tanto para Portugal como para o mundo. Não é controverso afirmar que este último ano termina sob novos ventos, que anunciam um paradigma político distinto, mais agressivo e disruptivo do que em anos anteriores.
No plano global, a mudança é ensurdecedora. Os pressupostos da ordem ocidental estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial e consolidada durante a Guerra Fria estão a ser profundamente questionados e, em muitos casos, subvertidos. Esta inversão resulta, em grande medida, da mudança abrupta de posição adotada pela administração dos Estados Unidos da América relativamente ao seu papel enquanto potência mundial, bem como à sua relação com aliados e parceiros internacionais.
A retórica adotada pela administração Trump sofreu uma transformação fundamental, antecipando um novo teatro político, com regras e pressupostos distintos, aos quais a Europa, em particular, terá de responder com novas posições estratégicas. A perspetiva de uma Europa alinhada de forma natural e equitativa com os seus parceiros transatlânticos alterou-se profundamente. Donald Trump não encara os seus aliados europeus como parceiros em pé de igualdade, mas antes como entraves ao desenvolvimento do seu país e do seu projeto político. Esta visão tem consequências diretas no modus operandi americano face aos Estados europeus, seja nos domínios económico, da segurança ou da cooperação internacional.
A postura dos Estados Unidos face à Ucrânia, à Rússia e à NATO, bem como o seu papel enquanto potência económica global e, mais recentemente, a questão da Gronelândia, contrastam de forma clara com os interesses europeus. Perante esta nova realidade, a Europa deve repensar o seu papel no plano global e afirmar-se de forma mais determinada na defesa dos seus valores e interesses. A dependência estrutural em relação aos Estados Unidos constitui um alerta inequívoco para a necessidade de uma retórica e ação mais proativa, autónoma e independente.
No domínio da defesa, o despertar foi particularmente brusco. A dependência europeia da NATO, onde os Estados Unidos assumem um papel central, revelou fragilidades significativas, obrigando, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados europeus a ponderar seriamente a responsabilidade direta pela sua própria defesa. De igual modo, a política económica americana impõe à Europa a necessidade de definir um projeto económico distinto. A União Europeia deve, mais do que nunca, reforçar a sua independência económica e energética, afirmando-se como motor de progresso e inovação nos setores tecnológico e industrial.
Entrámos em 2026 num contexto global profundamente diferente e potencialmente inquietante, mas também repleto de oportunidades. A doutrina política dos Estados Unidos expôs vulnerabilidades estruturais europeias e evidenciou a volatilidade da ordem internacional, abrindo caminho para que a União Europeia inicie uma cisão gradual da sua extrema dependência face a Washington e percorra um trajeto mais autónomo, orientado para o crescimento, o desenvolvimento e a afirmação num palco internacional caótico, marcado por ameaças reais à democracia e ao Estado de direito.
Num plano mais interno, se 2025 foi um ano agitado no cenário global, o mesmo se verificou em Portugal. Como parece tornar-se tradição, o país iniciou o ano com a queda prematura de um governo na sequência de uma moção de desconfiança, lançando novamente o sistema político num ciclo de eleições legislativas antecipadas.
Se a rutura de paradigmas marcou o ano transato, os resultados eleitorais confirmaram essa tendência: uma queda acentuada, ainda que expectável, do Partido Socialista e um crescimento acelerado do Chega, culminando no enfraquecimento do tradicional bipartidarismo português. Seguiram-se, em outubro, as eleições autárquicas, onde esta dinâmica de mudança se manteve, com forças políticas emergentes como o Chega e a Iniciativa Liberal a conquistarem espaço, reforçando a fragmentação do aparelho político tradicional e dinamizando a democracia local.
O sentimento é inequívoco: os portugueses procuram mudança. O paradigma alterou-se, e a segunda metade desta década destaca-se pelo surgimento de novas forças políticas e pela procura de respostas inovadoras para problemas antigos e persistentes.
O ano de 2026 não promete ser menos intenso. Eleições presidenciais, novos desafios e a necessidade urgente de preparar o país para um futuro cada vez mais incerto marcam o horizonte próximo, horizonte esse onde o liberalismo irá desempenhar um papel central enquanto garante dos valores democráticos e do progresso.
Feliz 2026.