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Violência na Saúde: sinalizar, apoiar, cuidar

 

 



 

Quando quem cuida passa a precisar de cuidados, não é apenas um problema do setor, é um sinal de alarme da própria sociedade.

A violência contra profissionais de saúde deixou de ser exceção e afigura-se um indicador preocupante de desequilíbrio no sistema.

Segundo dados de entidades oficiais (Direção Geral de Saúde; Ordens Profissionais e Estruturas sindicais), nos últimos anos os casos de agressão verbal e física a profissionais de saúde aumentaram de forma contínua.

O fenómeno já não se limita às urgências nem aos momentos de maior tensão: tornou-se sistémico.

A origem desta violência é múltipla: a soma de escassez de recursos humanos, burnout prolongado, tempos de espera insustentáveis e desconfiança de alguns utentes - também alimentada pela ausência de educação e valores - transformaram a relação terapêutica num terreno instável, onde a frustração substitui o diálogo e o medo corrói a vocação.

Mas as causas não se esgotam aqui. Num contexto de ruído constante de desinformação amplificado nas redes sociais, os rumores, as falsas expectativas e os discursos fáceis descredibilizam o saber e alimentam a raiva, transformando a relação numa rutura onde o espaço do cuidado dá lugar à defesa.

Perante isto, é preciso mais do que indignação. É preciso agir, numa abordagem estruturada e coerente, em três frentes: sinalizar, apoiar e cuidar.

Sinalizar significa garantir canais rápidos, seguros e sem represálias para denunciar agressões. O que não se regista, não existe e para que cada caso seja tratado com seriedade, é necessário registar. A violência invisível perpetua-se.

Apoiar implica assegurar acompanhamento psicológico, jurídico e institucional às vítimas. O trauma de quem sofre violência no local de trabalho não termina com o incidente. A marca emocional não desaparece com o turno seguinte.

Cuidar, por fim, é reformar ambientes e modelos organizativos, promovendo equipas estáveis, tempos de recuperação e liderança próxima. Cuidar bem de quem cuida é condição essencial para cuidar bem de quem precisa.

Erradicar a violência, sarar esta ferida ética, requer mais do que segurança física: requer cultura. Educação cívica, comunicação transparente, liderança ética e compromisso político são pilares de uma saúde centrada no respeito. A confiança deve voltar a ser o primeiro gesto de qualquer encontro entre profissional e cidadão. Cuidar é verbo de dois lados.

A violência na saúde não é apenas um problema profissional, é um espelho moral da sociedade. Quando os cuidadores adoecem por exercer o seu dever, fragiliza-se o próprio conceito de cuidado. E a pergunta impõe-se: que saúde pode resistir num país onde até quem cura começa a sangrar?

Por uma cultura de paz na Saúde, sinalize-se, apoie-se, cuide-se!


 

 



 



 



 

Mário Peixoto

Mário Peixoto

10 janeiro 2026