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Num tempo de incertezas, o Presidente da República de que mais precisamos


 

Com novas eleições, voltamos a um exercício reflexivo sobre a escolha de quem decidirá em nome de todos nós.

Reflexivo, ou nem sempre. Quantos votos do sufrágio sairão simplesmente de uma fidelidade partidária, por orientação do presidente da Junta, ou pelo carisma janota da cara apresentada? Ou ainda: moeda ao ar e decisão em 3 segundos antes de riscar o boletim. Escolhe-se o melhor prometedor de mudanças que se farão concretas na minha rua, ou ficaremos por aquele que acendeu em mim uma chama no debate televisivo ou no comentário certeiro do tiktok? Haverá, quiçá, votos por convicção ideológica. Resquícios de uma minoria, ilusoriamente achada como a norma entre bolhas de gente que não vive neste mundo.

Parece, porém, que os tempos acautelam mais atenção. Vamos percebendo que o mundo anda imprevisível. Talvez sempre tenha andado. Mas generaliza-se uma inquietação mais presente e próxima de casa. A guerra, por definição, desrespeitadora de leis; a transformação dos equilíbrios internacionais, impactando as dinâmicas económicas que alcançam o lar de cada um; a mobilidade global, entre quem se vê partir e quem se vê chegar, e as adaptações a que tudo isso nos obriga.

A realidade é que andamos com medo, mas nem por isso mais cautelosos. Ora insistimos no mesmo, ora nos deixamos levar por frases vigorosas ditas em modo de comentador de futebol. Em presidenciais, votaremos numa única identidade. “Cortador de fitinhas” de inaugurações exuberantes, mas também Comandante Supremo das Forças Armadas, nomeador de embaixadores e vinculador de Portugal a acordos internacionais. Costumamos atribuir-lhe meramente um poder moderador, mas quão importante poderá ser uma atitude de mediação em tempos voláteis e de desassossego?

Perante um governo sem discernimento para afirmar que o rapto da figura presidencial por parte de uma nação estrangeira abre um precedente perigosíssimo, e que se arrisca poder tornar prática vulgar contra qualquer Estado, precisamos de um Presidente da República, pelo menos, com bom-senso.

Podemos estar convictos da tirania de Maduro e da tragédia em que vive o povo venezuelano, mas nenhum outro país é o arauto moral para definir o certo e o errado no mundo, e escolher quem deve governar em cada lugar. Tristes aqueles que veem o mundo a preto e branco e que definem o bem e o mal por um único diapasão.

Principalmente para países como o nosso, de demografia pequena e meios militares limitados, urge bom senso, e a sabedoria do saber estar, entre a moderação da diplomacia e a coragem de atuar sem hesitação.

O berreiro perentório de André Ventura em apoiar o fim dos sanguinários ditadores, independentemente dos meios utilizados para o fazer, pode ser charmoso e heroico a muitos ouvidos, mas se não for retórica é de uma profunda ingenuidade. Quem defende a liberdade através de ações predatórias acabará por se confrontar um dia com um papão maior que lhe venha trazer a sua própria ideia de liberdade.

Mas muito pior ainda é insistirmos no mesmo. Que vergonha utilizar a experiência da política partidária como argumento de superioridade. A promoção de António Seguro ou de Marques Mendes não serão mais do que o prolongar de uma lógica instituída e de uma classe estabelecida que se favorece mutuamente, mais em função de proveitos próprios do que para benefício do país. O primeiro é um porta-voz de lugares comuns, sem ideias verdadeiramente novas. Em que momento da vida pública Seguro demonstrou um quinhão de valentia? E quanto a Marques Mendes, facilitador de negócios… alguém que vem de dois anos a faturar mais de 700 mil euros enquanto consultor, mesmo se legal, chegará com bom prenúncio? É essa figura quem desejamos que defenda com abnegação os interesses maiores do país?

Jorge Pinto e Cotrim Figueiredo poderão trazer uma ideologia convicta, mas a sua visão europeísta de um Portugal submisso é perigosa e incauta. O primeiro saberá que a Europa não é exemplo no respeito do Direito Internacional e na defesa coerente dos outros povos, e o segundo perceberá que uma aposta quase exclusiva num único parceiro, em caso de crise, arruinar-nos-á por inteiro. Quanto a Catarina Martins e António Filipe, encontro-lhes um destino mais adequado e útil ao país nos Parlamentos respetivos.

Um pé na Europa, um pé no Atlântico. A experiência que devemos ambicionar para um Presidente da República não é a partidária, mas a de quem, ao longo da vida, soube decidir e liderar sob pressão e incerteza, de quem soube encontrar contenção e serenidade quando tudo pedia por um grito, de quem soube agir e operar quando todos pareciam desorientados.

Não sou militar, mas já estive próximo de cenários de guerra. Portugal encontra-se por agora em paz, mas o mundo está em alta tensão. Precisamos de um Chefe de Estado preparado para o que possa vir de pior, numa lógica de paz, de sabedoria e sem cobardias. E é por esse motivo que nestas eleições encontro a nossa melhor solução em Henrique Gouveia e Melo.



 

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Tomás Sopas Bandeira

10 janeiro 2026