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Ser rei é outra coisa

Um rei que se deixa perturbar não é um rei de verdade. Pode ser um ditador, um imperialista, mas não é um rei. Pode ter poder para mandar os seus magos perceber o que se passa, mas não é rei, nem senhor. Pode até mandar num exército inteiro e ser-lhe indiferente matar os inimigos, mas ainda assim não será rei. Será talvez um prepotente assassino, mas não rei. Herodes tinha o título, mas não foi rei de verdade. Putin e Trump são dos que também se servem dos outros para atingir os seus fins pessoais, individualistas e quantas vezes hediondos, mas estão a léguas de ser reis. Nicolás Maduro, foi-se sabendo, não respeitava a democracia e chegou a feri-la com desonestidade na contagem dos votos populares, também não era rei. Muitos outros se acharam reis, mas não passaram de malfeitores, de terroristas, de fascistas e de outras categorias e títulos escabrosos que os distinguiram soberbamente de um rei de verdade. Todos esses se perturbaram com a ânsia de poder, com a possibilidade de serem substituídos, de terem concorrência a competir pela mesma cadeira ou pela mesma sala de geometria imperial, todos foram eliminando opositores com toda a espécie de venenos, calado perspectivas diferentes das suas, como se fosse um acto de coragem e de defesa nacional, ou ameaçando de inúmeras formas quem pensava diferente. Os que ainda no activo se julgam reis e não respeitam o povo não passam de bandidos sem escrúpulos, ainda que uma vez ou outra possam contribuir ou ter contribuído para a resolução de um problema com que outros supostos reis não quiseram sujar as mãos, quase sempre por cobardia. Um rei de verdade não o é na linhagem, na usurpação do poder, na prepotência, nem no mau trato dado aos súbditos. Um rei de verdade é-o no serviço, no respeito pelos outros - os seus e os de outras nacionalidades –, é-o no respeito pela lei e pelas instituições internacionais, as que representam todos e têm por escopo a paz e a comunhão dos povos. Um rei de verdade não é polícia por conta própria, não procura nem o título nem a coroa, disponibiliza-se simplesmente para servir.

2. Em todo o lado há reis a fingir. Por cá, as tentações e a perturbação também afectam os mandantes. Mesmo se o sistema instituído é uma democracia, não raro, os agentes institucionais no poder procuram a todo o custo decidir e proceder como se fossem maioritários, como se não tivesse havido eleições, como se o povo não se tivesse pronunciado, desrespeitando opções de parte da população que preferiu outros representantes. Tais agentes comportam-se como reis que não são sob um sistema em que o povo deveria ser quem mais ordena. Ser rei é outra coisa e não há nenhum por estes lados. Das autarquias ao governo central, há muitas vezes pouca coerência entre a lei fundamental, a Constituição, e a prática política. Há décadas que princípios essenciais não são são cumpridos! E não são questões de interpretação. São descuidos, talvez mais do que isso, desistências conscientes de deveres a que estão obrigados os eleitos. Fora isso, os desmandos e a prepotência vão-se vulgarizando, pondo em causa a credibilidade das instituições. Quem se candidata pode até estar bem intencionado, mas o sistema acaba por minar os seus propósitos. Quando a ânsia de poder é maior do que a vontade genuína de servir, quem quer ser rei fica perturbado perante a possibilidade de haver quem possa fazer melhor. Um rei de verdade respeita, é desprendido e tolerante, não tem ambições hegemónicas, não é desonesto e não obriga os outros a submeterem-se às suas lógicas, antes procura a concórdia e o bem comum.

Luís Martins

Luís Martins

6 janeiro 2026