«Como “foi” o teu Natal?» Eis a obsessiva inquirição que – logo pela manhã de 25 de dezembro – já andava de boca em boca, atordoando os ouvidos e massacrando os lábios com aluviões de lugares-comuns.
O Natal apenas tinha começado e, para muitos, já havia terminado.
É verdade que as promoções de Natal, as quilométricas compras de Natal, os intermináveis almoços de Natal – a culminar com o enfartado jantar da noite de Natal – estavam concluídos.
Ah! Falta mencionar a troca de presentes, cada vez mais padronizados, a tentar compensar a dorida escassez da presença.
Quantos esquecem que o melhor presente é estar presente?
Mas como lembrar os esquecidos se nos habituámos a esquecer os que só pontualmente são lembrados?
Cada vez são menos os que associam o Natal a Jesus.
Parece um truísmo, mas importa recordar que a origem do Natal não está, como alguns dizem, nas Saturnálias, nas Sigilárias ou na Festa do Sol Invicto que os romanos assinalavam.
Pode ter havido uma coincidência temporal nas celebrações, mas a razão de ser do Natal é o nascimento de Jesus.
Ninguém é coagido a comemorar o Natal. Mas não é curial que alguém negue – ou menorize – a sua identidade.
Desde há séculos que se celebra o Natal a 25 de dezembro, antecedido de um tempo de preparação, chamado Advento.
Uma preparação não é uma antecipação. O Natal chegou a ser preparado com muita intensidade em épocas recuadas, até com práticas penitenciais como o jejum.
Dessas práticas terá surgido um evento tão sóbrio e tão belo que congregava as famílias em torno de uma mesa.
A «consoada» era habitualmente realizada no fim da Missa da Vigília de Natal. Como os cristãos eram fiéis ao jejum, aquela refeição deixava a pessoa «consolada», vocábulo que evoluiu para «consoada».
Era assim – na noite de 24 para 25 de dezembro – que começavam os festejos de Natal.
Acresce que muitos não prescindiam de participar igualmente na Missa da Noite que se prolongava até ao raiar do dia, quando os galos começam a cantar. Daí tal celebração receber também o nome de «Missa do Galo».
Estavam, deste modo, inauguradas as festas de Natal, que chegavam a prolongar-se até à Festa da Apresentação do Senhor, a 2 de fevereiro.
Salta, portanto, à vista que o Natal não termina a 25 de dezembro; começa a 25 de dezembro, estendendo-se pela Oitava (até 1 de janeiro) para finalizar na Festa do Batismo de Jesus (este ano, a 11 de janeiro).
Como é óbvio, a vivência do mistério do Natal vai para lá da sua celebração litúrgica. Qual é a pressa, pois, que leva a dar por findo o Natal no preciso dia em que ele se inicia?
É fundamental que reaprendamos a olhar para o Silêncio de Belém. Como poetava Moreira das Neves, «promessas do mundo são apenas ilusão». Que ninguém duvide: «Não haverá Natal sem Cristo no coração»!