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Não quero ser o mais rico do cemitério


Por estes dias estava a seguir um documentário sobre uma figura benemerente em que o próprio, comentando o que dizem dele, referiu, num desafio lançado a outros possíveis participantes em favor dos outros: não quero ser o mais rico do cemitério! Senti que estava dado mote para novos beneméritos, tanto ou mais ricos do que o desafiante.



 

1. Eis o resumo da história. Um influente empresário do mundo do desporto – o termo poderia ser comércio do futebol – vai distribuindo fatias de donativos a diversas instituições, desde hospitais a serviço de assistência social, passando por associações de solidariedade ou oferecendo ambulâncias e casas a vítimas de incêndios. Quem conhece a personagem sabe que a discrição é a arma mais usada, embora, por vezes, deixe escapar alguns desses donativos para que possam tornar-se incentivo para outros com posses como ele.



 

2. Foi, então, neste contexto de sacudir outros que possuem bens e formas de os rentabilizar em favor dos demais que ele disse a frase citada: ‘não quero ser o mais rico do cemitério’, dando a entender que a sua forma de partilhar poderá ser seguida por outros, que já terão edificado os seus túmulos… Diz quem o conhece mais proximamente que não esqueceu o tempo em passou dificuldades e, agora, que ganha muito dinheiro no negócio de compra-e-venda de jogadores sente que deve fazer algo por quem precisa.



 

3. Vivemos num tempo e numa sociedade em que a fachada (como o papel de embrulho utilizado nos festejos natalícios representa bem o máximo no mínimo) e a ostentação daquilo que (pretensamente) se possui guerreia de uma forma demasiado provocatória: carros, casas, joias, adereços de moda, lugares de dinheiro difícil (caro, exibido e quase-suspeito), férias e lugares de lazer, viagens e jantaradas… tudo serve para impressionar desde os incautos aos vizinhos ou mesmo outros com idênticos objetivos mais ou menos declarados, assumidos e/ou pretendidos. Não deixa de ser quase escandaloso que os espaços mais caros e vistosos tenham sido os escolhidos e ocupados para as festanças de ‘passagem-de-ano’ ou – pasme-se – para se fazerem notar no tempo de Natal, fora do ambiente familiar…



 

4. Expressões como ‘sinais exteriores de riqueza’ já não coíbem muitos dos nossos coetâneos de tentarem afirmar-se com tais artefactos de índole socioeconómica. Em tempos não muito longínquos tais ‘sinais’ corriam o risco de alertar para as entidades fiscais e policiais. Agora já nada nem ninguém impede nem cria suspeição. Só que as surpresas acontecem e cai a máscara de tantos/as. Aquilo que anteriormente era gerido com circunspeção, agora está exposto nas redes sociais como se fosse o melhor de cada um, quando deveria envergonhar quem se expõe e quem explora tais mentalidades… Algo mudou e para muito pior!



 

5. Nota-se cada vez mais uma confusão de valores – qual caixa de pandora em exibição – onde parece que tudo tem o mesmo significado numa dessincronização com muitos dos critérios cristãos básicos. Quando antes se escondia com certa vergonha, agora se mostra sem pejo. Quando antes se honravam os compromissos mesmo económicos, agora acumulam-se créditos para pagar outros encargos. Quando anteriormente havia alguma ‘pobreza camuflada’, agora sacode-se o que poderia ajudar a viver na verdade para consigo mesmo e para com os outros.



 

6. Retomando a ‘figura’ subjacente a este texto, parece que deveríamos cultivar mais a partilhar e o cuidado desinteressado pelos outros, mesmo pelos que podem ser menos favorecidos pela conduta de vida e/ou subjugados pela pobreza aviltante. Recordo uma frase de S. Basílio Magno (século IV): o que tens a mais não te pertence, é dos pobres! Não seríamos mais humanos se vivêssemos no ritmo desta provocação? Não haveria menos pobres, se todos em vez se aferrolharmos, partilhássemos? Com efeito, o cemitério não precisa de fausto, mas de igualdade com fraternidade…



 

7. «Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: “Eu te amei” (Ap 3, 9)» (Leão XIV, ‘Dilexit te’, n.º 121).



 



 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

5 janeiro 2026