A televisão pública exibiu, em 11 de dezembro do ano findo, um programa intitulado “Entre Dois Mundos” com a finalidade de assinalar os 50 anos do retorno dos colonos portugueses vindos de África, onde viveram e alguns deles nasceram. Tendo sido exibidas imagens e tecidos comentários relativos não só a esse êxodo – que veio acrescentar 5% à população do apelidado “puto” –, como à mudança de vida dos colonos, em especial, dos vindos a partir de Luanda e Lourenço Marques (Maputo). A que se lhe juntaram algumas entrevistas e opiniões sobre quem tudo teve de deixar para trás.
Sendo eu um aficionado dos mais variados documentários, principalmente dos que me trazem à memória factos do passado, a ele assisti expectante. Não, sem me lembrar das consequências de uma descolonização levada a cabo de forma abruta, embora considere o erro que foi não ter sido negociada nos tempos da ditadura. Assim foi e não há volta a dar. Porém, de tudo o que ali foi revelado pelas várias personalidades convidadas, quase todas com discurso alinhado sobre o assunto, passo a destacar o testemunho duma mulher das letras que não conseguiu revelar algo de positivo que os colonos portugueses lá deixaram e para onde nem foram obrigados a ir.
Escolhida a dedo para colagem à narrativa da realização do referido programa, de que sempre fomos um país racista, inclusive nas ex-colónias africanas, a escritora acabou por servir os propósitos do mesmo. Já que é autora de várias obras consagradas a versarem o colonialismo – também ela englobada na ponte aérea destinada aos retornados em pleno verão quente de 1975 – veio mostrar a prova desse crime. Tratava-se de uma foto antiga de 5 crianças, três delas brancas calçadas e duas nativas, descalças, segundo ela, a prova evidente da discriminação racial que por lá havia.
Sem pôr em causa o seu mérito, a referida cidadã acabaria por contradizer-se ao afirmar ter ficado chocada quando chegou à Metrópole e se deparou com o atraso e pobreza. Assim sendo, como classificaria ela as inúmeras crianças do meu tempo de menino e moço que, na altura dessa foto, por cá andavam sem calçado nos pés, enquanto outras não? Será que também era racismo? Claro que não! Eram dois mundos “diferentes”, mas iguais em termos de pobreza. Pelo que a referida condição não só se verificava por lá, como por todo o território português. Contudo, pergunto: porque é que essa revoltada com o colonialismo português, não se deixou ficar por lá para ajudar a melhorar a vida do povo moçambicano?
Já agora, como é costume dizer-se que coisa herdada é menos estimada, o “fim da picada” foi não lhe ter ouvido uma única palavra sobre o que se passou – a seguir à saída dos colonos – com a instalação de grupos soviéticos e cubanos em Angola, nem à presença do Estado Islâmico em Moçambique. Será que não mais houve discriminação, esclavagismo e racismo? Conviria ter-lhe sido lembrado o enorme impulso dado pelo povo lusitano ao desenvolvimento daqueles ex-territórios ultramarinos. Bem como ao invejável crescimento económico que fez deles grandes exportadores de vários produtos agrícolas. Só que nada foi dito.
Depois, há uma propensão para se falar e escrever sobre o período que vai do Estado Novo ao 25 d’Abril de 74. Evitando que seja tocada a fase que vai do golpe republicano infligido à monarquia, ao 28 de maio de 1926. Como uma espécie de apagão à miséria, empobrecimento, perseguições e pilhagem que grassaram durante a 1.ª República. Assim como não interessa dizer não ter havido um único país colonizador, no mundo, isento de pecado.
Enfim, na era do “pé-descalço” muitos foram os nossos compatriotas que rumaram às ex-colónias. E como a dor que se esconde fica sem remédio, é justo reconhecer os sacrifícios por que passaram para desenvolver e construir o que de valioso por lá ficou. E não é por acaso que se esses desterrados tivessem sido racistas, não teríamos a atual a onda de africanos a procurarem Portugal para viver e trabalhar.