A ignorância não desculpa tudo, muito menos a vaidade e o poder supremo do dinheiro podem esconder, à custa da “arrogância” sublime dos seus pés, a miserável contração com que Ronaldo brindou o mundo, perdendo, a dois tempos, a áurea que uniu em torno de si os que admiravam o percurso do menino pobre da Madeira. Pedir, por isso, aos portugueses, nesta altura, que olhem para Cristiano como exemplo a seguir, é uma má escolha, tantos são os exemplos por esse mundo fora que podem e devem inspirar-nos a ser melhores. Recordo, a propósito da sua entrevista ao jornalista britânico, Piers Morgan, a forma como enfatizou a sua admiração por Donald Trump, ao considerá-lo como alguém “que pode mudar, ou ajudar a mudar o mundo (…)”, acrescentando que “é uma das pessoas de que gosto mesmo porque acho que ele consegue fazer as coisas acontecer e eu gosto de pessoas assim”. É verdade que o presidente dos Estados Unidos já tinha na sua posse uma camisola de CR7, que o ex-primeiro ministro português, António Costa, lhe tinha oferecido, mas daí ver o jogador emprestar o seu nome para se sentar ao lado de Trump, num sumptuoso jantar, para prestar admiração a um homem que tem apostado na destruição da Democracia americana e na desestabilização da ordem internacional, é algo que ultrapassa o bom senso que aconselhava Ronaldo a medir o alcance do que diz e do que faz. Ao futebol o que é do futebol, à política o que é da política. Assim não o quis e ao fazê-lo, dando, aliás, cobertura ao líder de um país onde joga, acusado da autoria moral da morte do jornalista saudita, Jamal Khashoggi, ocorrido em 2018, no consulado saudita, em Istambul, Cristiano, tomou parte, disse ao que vinha, mesmo que, no pícaro da sua ignorância, nos tente demonstrar que não quer saber de política para nada. Os seus conselheiros, pelos vistos, também não, deixando-o “preso”, colado à imagem de dois homens para quem o direito internacional e em particular os direitos humanos, são carne para canhão. Este não pode ser o exemplo a seguir pelos portugueses como fonte de inspiração para se superarem e atingirem os seus objetivos, quando no seu curriculum exaura tudo menos moral, ética e cumprimento das regras que todos temos de cumprir. Para facilitar a vida, citando aqui António Conceição, recordo, que este português mil milhões, é o mesmo que foi condenado em Espanha a 23 meses de prisão por fraude fiscal, o mesmo português que pagou a uma cidadã americana para não ser acusado de violação, que “comprou um filho”, em barriga de aluguer, como quem compra um Ferrari e, apesar disso, o seu génio de futebolista e motor da seleção, permitiu que o país lhe perdoasse, a cada passo, as suas faltas. Outros teriam desaparecido do mapa por muito menos. Apesar da sua aparente humildade e do muito que tem feito pelo futebol, Cristiano entrou num novo mundo por mote próprio, provavelmente sem medir o risco nem as consequências. Ao fazê-lo, dividiu, perdeu a áurea. Não vejo como, nesta circunstância, estas atitudes possam ser inspiradoras nem exemplos para ninguém. Os outros portugueses, admiráveis nas várias áreas do conhecimento, que são referências mundiais, esses sim, deviam constar de uma lista inspiradora, aglutinadora e estudada nas nossas escolas para servirem de exemplo. Pontapés quadrados, por muito dinheiro que tenham e ações solidárias que desenvolvam, não chegam para fazer crescer e desenvolver um país. Portugal não é só futebol, senhor Primeiro-Ministro.