Na história de Portugal, a Ínclita Geração foi um grupo de príncipes e infantes da Dinastia de Avis.
Maioritariamente filhos desportivos de uma lenda do clube - Sr. Carlos Baptista - também no SC Braga houve ínclitas gerações no Estádio 1º de Maio que brilhavam…no pelado da Ponte. Uma das que treinei na época de 1994/95 realizou um encontro gastronómico no início desta semana e convidou-me. Trinta anos depois, revi os miúdos de então com 14/15 anos. Hoje, quarentões e pais de família, há quem continue por cá, enquanto alguns assentaram arraiais noutros pontos do globo.
O jantar foi um imenso desfiar de memórias. Lembrou-se o sr. Carlos Baptista e o seu humanismo; o feitio peculiar de Vítor Santos quando alguém aparecia para treinar com camisola de outro clube e era convidado a voltar apenas, quando estivesse condignamente vestido; os velhos balneários do 1º de Maio consumidos pela humidade; a “água quente” que, por vezes, surgia sem que as vítimas soubessem a proveniência; o barulho do alumínio nas frias tijoleiras debaixo da bancada; o recolher das botas, devidamente engraxadas, no sr. Melo, depois de receber do sr. Branco o cesto de roupa. O posto médico, onde gente empenhada tentava milagres com parcas condições, com a parafina e/ou o gelo a serem os tratamentos de eleição. Houve quem lembrasse as dores de barriga recorrentes de um dos guarda-redes, quando o adversário era difícil, bem como a dureza, em tempos de chuva - com bolas pesadíssimas - de fazer cabeceamentos e pontapés de baliza. Um dos centrais presentes, confessou que ainda hoje tem unhas encravadas.
Foram lembrados jogos icónicos frente ao Boavista que, à época, importava jogadores de idade duvidosa, capazes de decidir, sozinhos, jogos nos infantis e iniciados. Lembrei que antes de um jogo no Bessa, numa entrevista telefónica para “A Bola”, eu disse: Se jogarem com jogadores da idade dos nossos, temos hipóteses. No dia do jogo, adeptos adversários rodearam o nosso balneário para “conversar” com o Carlos Mangas. Na folha para a imprensa afixada à porta, o sr. Teixeira escreveu: Treinador - Jorge Ferreira (os meus dois outros nomes). Questionado, informou os adeptos que o Carlos Mangas tinha ido com os juniores para a Póvoa de Varzim. Livrou-me de boa. Também se recordaram as suas piadas secas e a inconfundível gargalhada.
Esta ínclita geração projetou futebolistas, tendo alguns a atingido as Ligas profissionais (1ª e 2ª). Um deles, ainda hoje o melhor marcador de sempre da 2ª Liga, já me perdoou o facto de comigo ter sido lateral-direito e trinco.
Naqueles tempos, de campos pelados e água nem sempre quente, o futebol era uma coisa simples. Talvez por isso, muitos deles, na atualidade, se mostrem desiludidos e afirmem não acompanhar este futebol indústria. Há até quem opte por pedalar em locais míticos, no País e estrangeiro - como o Passo do Stelvio, na cordilheira dos Alpes.
Ofereci a cada um o meu livro “FUT360L - da Pereira à Pedreira” onde podem, inclusive, rever-se na página 31, há muitos kg… atrás. Ficou acordado não deixar passar mais trinta anos para um novo encontro, sob pena de o Mister não (poder) comparecer.