A mensagem de Natal do primeiro-ministro Luís Montenegro procurou lançar ao país um desafio ambicioso: transformar a atual conjuntura de dificuldades numa oportunidade para reforçar a nossa confiança coletiva e a capacidade de superar obstáculos. Num contexto em que Portugal continua a enfrentar desigualdades, rendimentos limitados e pressões sociais relevantes, o primeiro-ministro considera que o país tem de escolher entre “contentar-se” com estas circunstâncias ou “aproveitar a situação” e garantir que vai “crescer mais do que os outros no futuro”.
A metáfora desportiva que utilizou ajuda a clarificar essa orientação. “É a diferença entre jogar para empatar ou ter a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar”, defende. Mais do que uma frase inspiradora, trata-se de um apelo a uma atitude nacional de ambição e superação – um convite a romper com a resignação e com a ideia de que Portugal deve limitar-se ao papel de país pequeno e conformado. Nesse sentido, Luís Montenegro pede mesmo aos portugueses que abandonem a “mentalidade do deixar andar” e adotem uma de “superação”. “A mentalidade de Cristiano Ronaldo”, aponta, evocando disciplina, esforço e foco como referência simbólica para o caminho coletivo.
Este apelo não ignora as desigualdades existentes nem o facto de muitos cidadãos viverem em condições difíceis. Portugal continua profundamente desigual, tanto do ponto de vista económico como social. Há milhares de famílias para quem a ambição não é uma questão de vontade, mas sim de sobrevivência. Pessoas que vivem com salários baixos, habitação precária, serviços públicos sobrecarregados e trajetórias de vida marcadas por exclusão. Não há vantagem em fingir que todos partem do mesmo ponto, como se a linha de partida fosse igual para todos. Não é. Há crianças que crescem com tempo, apoio e recursos para estudar, praticar desporto, aprender línguas e desenvolver talento. E há outras que crescem entre turnos de trabalho dos pais, transportes tardios, refeições contadas e poucas oportunidades para sonhar. Pedir às duas que tenham a mesma ambição é, no mínimo, injusto.
Mas não é essa a ideia central de Montenegro. O governo tem reafirmado que combater a pobreza, criar melhores oportunidades e reforçar os serviços públicos, designadamente na saúde e educação, é condição indispensável para que essa ambição seja partilhada. Na sua mensagem acrescentou que “A solidez económica que estamos a construir assenta num modelo de salários mais altos e impostos mais baixos. Este caminho carece de coragem política e capacidade reformista. Precisamos de ser mais eficientes e mais produtivos para atingirmos novos patamares de crescimento que tragam também novos patamares de rendimento”. Num Portugal que foi reconhecido como a "economia do ano de 2025" pela revista The Economist, é crucial que se cumpra a legislatura até ao fim.
A cultura de mérito e exigência proposta pelo primeiro-ministro não exclui a responsabilidade do Estado – pressupõe que o poder político cria condições para que todos possam participar no progresso. É também neste enquadramento que ganha sentido a célebre frase de John F. Kennedy, citada como inspiração cívica: “Não perguntem o que o vosso país pode fazer por vós – perguntem antes o que vós podeis fazer pelo vosso país.”
O apelo à responsabilidade individual e coletiva surge aqui como complemento à ação governativa: um caminho onde o Estado lidera, mas onde a sociedade assume igualmente o compromisso de contribuir para um país mais competitivo, mais justo e mais confiante no futuro.
A ideia de termos “dez milhões de Ronaldos” não deve ser lida como simplificação ou ilusão de igualdade absoluta de oportunidades, mas como estímulo moral e cultural: elevar expectativas, reforçar a autoestima nacional e recusar o imobilismo. Podemos e devemos admirar o exemplo de Ronaldo – talento, disciplina, persistência. Mas a vida não é um relvado nivelado e o país não é um campeonato onde todos jogam com as mesmas competências. A verdadeira ambição nacional e a ideia do primeiro-ministro não é transformar todos em super-atletas do mérito, mas assegurar que ninguém fica caído fora do jogo. Devemos ler a mensagem de Montenegro como uma clara indicação do caminho para uma ambição partilhada – crescer, inovar e acreditar que Portugal pode, verdadeiramente, jogar para ganhar.
Feliz Ano Novo!