Vamos entrar em 2026 e, como sempre, qual é o primeiro desejo que fazemos? Saúde, porque percebemos, ano após ano, que ela chega antes de tudo o que também desejamos, antes da paz, do amor, da segurança financeira e dos sucessos pessoais e profissionais, não por estes serem menores, mas porque precisam de um lugar onde acontecer. É no corpo que a liberdade começa e é nele que a mente encontra espaço para se afirmar. O mote da nossa conversa de hoje é, então, falar de Filosofia e saúde, para compreender a saúde como unidade de corpo e mente, porque quando um adoece o outro também cede.
Hoje, convido os leitores a entrarem comigo nesta reflexão, lembrando que pensar a saúde como um todo é uma questão que a filosofia reconheceu muito antes de a debatermos no discurso do quotidiano. Foi Juvenal, poeta romano do século I e II, quem nas Sátiras nos deixou a frase em latim Orandum est ut sit mens sana in corpore sano, que em português significa devemos pedir uma mente sã num corpo são, não como conselho de ginástica, mas como constatação filosófica de que o pensamento saudável depende sempre do que o corpo nos deixa fazer. No essencial, a saúde é esta unidade onde um e outro se interligam.
Olhando mais atrás na história, na Grécia do século V a.C., Hipócrates de Cós falou da saúde como equilíbrio do modo de viver, a diaita, onde cabiam o movimento, a alimentação, o descanso e o mundo que nos rodeia, porque, nesse tempo, a saúde começava no cuidado do corpo e nos hábitos que o sustentam. Mais tarde, Galeno de Pérgamo, médico e pensador do século II, formado na herança de Platão e Aristóteles, reforçou a mesma visão ao afirmar que o corpo é o lugar onde a vida ganha forma e que a razão cumpre melhor a sua função quando há ordem na forma como se vive, deixando uma citação que atravessou séculos e ainda hoje nos ajuda a entender o essencial, a melhor constituição do corpo é aquela que melhor dispõe a alma para a sua função, uma frase que permaneceu por nos lembrar que o corpo é condição e não apenas um detalhe.
Seguindo este pensamento, Avicena, nome pelo qual ficou conhecido no Ocidente, foi médico e filósofo do século XI, nascido na região da Pérsia. A sua obra mais importante, O Cânone da Medicina, tornou-se uma referência na história da medicina durante centenas de anos. Nela, Avicena defendeu que a saúde resulta do equilíbrio entre corpo e alma, porque o ser humano deve ser visto como um todo, e não em partes separadas. Para ele, a mente e as emoções influenciam o corpo, e o corpo também afeta a vida interior.
Se quisermos olhar para um momento em que a filosofia do corpo se tornou universal, é inevitável regressar a Olímpia e à origem dos Jogos Olímpicos, em 776 a.C., que nasceram de um ideal de disciplina, saúde e preparação, onde o valor do atleta estava no treino constante e não na vaidade. Falo a partir da minha experiência de professor e de atleta que fui, onde confirmo que o desporto escolar deve ser uma aposta real e acessível, porque a prática desportiva não fortalece apenas o corpo, fortalece também a confiança e a resiliência. E, tal como para o cidadão comum o cuidado com o movimento diário é essencial, também na escola este investimento é fundamental para proteger e manter a saúde física e mental, fazendo do desporto um hábito para a vida e não apenas uma atividade do currículo.
Com a mesma intenção de clareza, quero mostrar aos nossos leitores como Nietzsche, crítico de qualquer pensamento que se imagine fora do corpo, escreveu que “há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria”. Para o filósofo alemão, pensar começa na vida que pulsa, não numa mente separada do corpo, e por isso compreender o humano é reconhecê-lo como um todo, onde a razão nasce da experiência viva e não de ideias afastadas da existência física.
É agora o momento de fazer uma homenagem. Ângela Pereira, 23 anos, natural de Afife, partiu no dia 25 de dezembro, Dia de Natal, e o país inteiro a recordou, porque nela vimos algo que nem sempre aceitamos, o corpo tem limites e a saúde muitas vezes não depende de nós. Nem sempre podemos controlar a sua duração, mas Ângela soube honrar o dia que ainda lhe era dado, mostrando que, mesmo na fragilidade, é possível não desistir da vida antes do último instante possível. A sua lição não foi a de vencer a dor, mas a de honrar a vida até ao limite do que ainda podia ser vivido, e é essa verdade, tão humana, que hoje recordamos com gratidão.
O exemplo de Ângela lembra-nos de que a saúde é frágil e nem sempre está nas nossas mãos preservá-la, mas merece sempre a nossa melhor atenção, e é com essa verdade que vos desejo que 2026 vos traga, antes de tudo, saúde, paz, amor e sucessos pessoais e profissionais, deixando a pergunta que fica para todo o ano:
- Em 2026, que prática ativa pode tornar a mente mais resiliente?