O ano que agora finda deixará marcas profundas na nossa história comum, desde logo, pelo aprofundamento da incerteza, da incapacidade de gerar consensos determinantes à prossecução da paz entre os povos, das desigualdades económicas e sociais, mas sobretudo e mais uma vez pela vitória da mentira e da manipulação que nos torna a todos vítimas de uma máquina bem oleada que tem vencido todas as guerras, impondo uma verdade alternativa que nos encaminha para o caos. A pior das sensações – a incerteza – geradora de angústia, frustração, atinge em força a geração dos que em breve se preparam para entrar no mercado de trabalho e, no entanto, é neles que o país confia o futuro sabendo, de antemão, que foram os primeiros a caírem na esfera de influência da “vitória do Falso”, como lhe chamava ontem, no seu editorial, o diretor do Publico, David Pontes, em breve balanço ao ano de 2025. São estes jovens, determinados e inspirados pelo sucesso fast food e pela vontade férrea do alcançar o êxito, sabe-se lá a que preço, que se preparam para serem determinantes das escolhas que o país fará daqui para a frente. O que se sabe, por agora, é que nas universidades, onde terminam os seus estudos, a voz cada vez mais maioritária julga pela aparência, pela perceção, prefere a verdade alternativa para se radicalizar, opta por ideias extremistas contra qualquer coisa que se lhes diga que exprima moderação, contenção, equilíbrio. Está disposta a ir às urnas para expressar as suas frustrações contra o sistema político que nunca funciona a favor das suas expectativas, das suas ambições. É com esta visão desequilibrada e, paradoxalmente, cheia de razão, que rodeados de um anátema, sem fim à vista, que esta geração mostra as armas que tem. E nós, os mais velhos, especialistas em assobiar para o lado, ou a encontrar soluções ambíguas que nada resolvem, continuamos alegremente a aprofundar o caos, sem manual de sobrevivência. Afinal, a estupidez humana é feita disso mesmo: de um classe política-formada internamente pelos partidos- “mal orientada” para sobreviver à incontinência pragmática dos radicalismos e dos extremismos que nos cercam, coartam a Liberdade e atingem profundamente a Democracia. Nunca os partidos clássicos geraram tanta incompetência, tanta ambição desmedida, tanta falta de sentido de Estado. Uma tendência que se agravou e tende a piorar antes de melhorar. 2026, tudo indica, será desenhado a partir de um Manual para aprender a viver no Caos onde a palavra de ordem – o politicamente (in)correto – poderá rapidamente aprofundar a contaminação, sem retorno, muitos países como Portugal numa espécie de revisitação permanente à Verdade. De nada valerá bracejar, criticar ou implorar se todos os dias, com mais ou menos força, mais tiro menos tiro, elegermos como alvo precisamente aquilo que mais gostamos: a nossa liberdade individual e coletiva. Com uma mentalidade avessa ao risco, os portugueses terão de aprender, batendo com a cabeça na parede, o valor do que foi alcançado pelo país nos últimos cinquenta anos. Mal ou bem é nosso, moldou-nos no que somos e somos muitos mais valiosos do que a verdade alternativa que nos querem vender. Somos Portugal. Era isso que se esperava que nunca fosse posto em causa.