No final de cada ano civil, gosto de pensar que os balanços funcionam quase como uma espécie de pulsação institucional. Aquele momento em que paramos, respiramos fundo e medimos a vida que passou pelos nossos dias. Na área da Saúde, este gesto ganha um peso especial: rever dados, processos e responsabilidades (“accountability”) não é apenas cumprir um ritual administrativo, é um compromisso íntimo com quem cuidamos e com quem trabalha para cuidar. É como ajustar o foco de uma lente que amplia a avaliação honesta e onde conseguimos ver com nitidez o que precisa de ser corrigido, reforçado ou celebrado. E, no fundo, este exercício lembra-nos que progresso sem reflexão é apenas movimento; com reflexão, torna-‑se direção. E 2025 pede precisamente essa coragem de olhar.
Neste ano, a saúde em Portugal vive num duplo plano. Nos discursos públicos, fala‑se de “transformação histórica”, dos milhões do PRR e da promessa tecnológica; mas, na experiência concreta de muitos portugueses, persistem as esperas para consultas, exames e a falta de sinais de estabilidade no SNS. Entre a ambição de um sistema moderno e a teimosia de bloqueios antigos, o país encerra o ano com a incómoda sensação de que se investe muito, mas se muda pouco num desfasamento entre promessa e realidade que qualquer balanço honesto precisa de admitir.
No campo financeiro, a despesa pública em saúde ultrapassa os 17 mil milhões de euros, revelando uma prioridade orçamental inquestionável. Contudo, este reforço convive com um défice do SNS acima de 1.300 milhões de euros, sinal de que continuamos incapazes de transformar mais despesa em melhor desempenho, planeamento estável ou transparência no uso dos recursos. Gasta‑se mais, mas governa‑se demasiadas vezes em modo de urgência e remendo, inclusive no circuito do medicamento, onde oscilações e ajustes pontuais não substituem políticas consistentes e previsíveis.
Também o PRR chega carregado de ambição: digitalização, modernização de infraestruturas, transição verde e reorganização dos serviços. No papel, o SNS aparece como um dos grandes beneficiários. No terreno, porém, a execução progride lentamente, e a suposta transformação permanece invisível para profissionais e utentes, que raramente reconhecem estes investimentos no seu quotidiano. De que serve chegarmos a 2026 com edifícios renovados, mas com reformas por consolidar e sem uma verdadeira mudança na experiência de quem trabalha e de quem procura cuidados?
A situação dos recursos humanos reforça esta tensão. O ano fica marcado por ciclos de greves, negociações mal resolvidas e equipas exaustas. Registaram‑se avanços relevantes em matéria laboral: o Governo alcançou acordos formais com um conjunto de sindicatos. Apesar destes progressos, o sistema continua marcado por desgaste acumulado e por negociações ainda em curso com algumas estruturas, revelando que a estabilização plena dos recursos humanos permanece um objetivo em construção. A fadiga deixou de ser conjuntural: tornou‑se estrutural. E um sistema cansado de si próprio dificilmente se reforma.
Tudo isto pressiona o acesso e a equidade. A normalização de serviços mínimos, greves e suspensão de atividade programada alimenta a perceção de que o acesso aos cuidados se tornou uma lotaria geográfica e social. Paralelamente, cresce o recurso ao setor privado e aos seguros de saúde, criando a sensação de um país a duas velocidades: quem pode pagar escapa à espera; quem não pode fica entregue à incerteza. A confiança no SNS enquanto pilar de coesão social sai fragilizada num momento em que mais se esperava estabilidade e previsibilidade e isto inclui o acesso a diagnósticos, terapêuticas e medicação essencial.
Por isso, o debate relevante já não é apenas sobre quanto se investe, mas para quê e como se investe. A pergunta que fica no ar é se estamos a construir um sistema mais resiliente, previsível e humano ou se continuamos apenas a adiar reformas fundamentais na área dos recursos humanos, da governação, da integração entre setores e da política industrial da saúde. Sem enfrentar estas questões de fundo, cada reforço orçamental arrisca-se a tornar numa anestesia temporária, e não numa alavanca para a mudança estrutural que o país tanto reclama.
No final, a conclusão impõe‑se: a saúde em Portugal não precisa apenas de mais dinheiro, nem de novos planos com nomes sonantes. Precisa de escolhas claras, coragem reformista e compromisso de longo prazo com quem cuida e com quem é cuidado. Transformar não é anunciar investimentos, é alinhar financiamento, pessoas, meios terapêuticos e resultados num projeto coerente de sistema. Caso contrário, 2025 será lembrado não como o ano da viragem, mas como mais um capítulo em que a promessa correu mais depressa do que a realidade.