Está quase a finar-se 2025. A Terra está prestes a terminar mais uma volta ao Sol e nós, humildes terráqueos, nos termos do calendário gregoriano estabelecido (inicialmente aplicado na geografia do catolicismo, mas hoje universalizado, foi estatuído pelo Papa Gregório XIII, em 1582, através da bula Inter Gravissimas), temos por hábito refletir sobre as mudanças verificadas no ano entretanto transcorrido.
Conectando-me, pois, com a tradição, proponho-me arrastar o leitor para uma reflexão acerca do que de bom e de mau podemos reter nesta revolução terrestre que se aproxima do seu final.
No plano nacional, as estatísticas libertam mensagens que propiciam vários matizes na leitura interpretativa. O crescimento económico exibiu-se acima da média do observado na União Europeia e, correlativamente, os índices de desemprego exibem-se em declínio e historicamente baixos, ainda que não os mais baixos de sempre.
Numa edição recente da revista britânica The Economist, Portugal foi mesmo destacado como a “economia do ano” 2025, no entanto, se analisarmos a realidade com uma grelha mais fina, não conseguiremos vislumbrar razões para um contentamento maior.
Este ano, a economia nacional deverá crescer num valor a rondar os 2% (porventura ligeiramente acima, apontam previsões reputadas, como as do Banco de Portugal). Todavia, no final do segundo semestre deste mesmo ano de 2025 a população ativa exibia-se aumentada em 2,7% relativamente ao período homólogo de 2024. Ou seja, em 2025 a produtividade individual até terá diminuído como resultado de o crescimento económico ter sido ancorado muito pela dinâmica de setores com mão de obra intensiva (sobretudo turismo e restauração, eventualmente a agricultura e outros). Estamos, pois, melhor globalmente, mas teremos de afinar o perfil geral da nossa economia para garantirmos no futuro uma melhoria sustentada das condições de vida da generalidade da população.
As estatísticas oficiais apontam ainda uma queda da taxa de pobreza na população, no ano em curso, o que só pode deixar-nos satisfeitos, todavia, manifestamente, temos ainda muitos pobres. E as estatísticas revelam ainda que em 2025 se observou um incremento do número de pessoas sem-abrigo, a par dos muitos que vivem em habitações precárias, denotando que as marcas positivas da dinâmica económica não irradiaram de forma satisfatória e refletindo, seguramente, o magno problema decorrente da carestia da habitação, que de há anos nos aflige. Curiosamente, importa lembrar que no plano europeu, e quiçá no mundial, somos um dos países com mais casas por habitante. A escassez ou o difícil acesso à habitação têm razões por demais identificadas, desde o grande influxo de imigrantes nos anos recentes, ao crescimento do alojamento local, à proliferação de agregados familiares minguados, às compras por fundos de investimento e, claro, aos baixos salários. Aguardemos pelo efeito da diminuição da fiscalidade sobre o arrendamento, recentemente aprovada.
E agora breves palavras sobre o mundo que nos cerca. Mantêm-se conflitos graves no Sudão, na Somália e noutras partes de África. Em Gaza, o magno terror está, por agora, interrompido. A paz teima em mostra-se muito difícil ou satisfatória para o martirizado povo ucraniano, alvo da irracionalidade da ira russa.
A União Europeia e a Europa no seu conjunto defrontam-se com a crescente evidência de que, mesmo a contragosto, têm de contar sobretudo consigo próprias, seja no aspeto militar ou da defesa, seja no que respeita à preservação da própria democracia e da liberdade. A autonomia europeia na defesa será incontornável a prazo. E o afamado estado social europeu deverá, inevitavelmente, ressentir-se.
O Mundo cresceu e a América está a ficar mais pequena. A América do MAGA trumpiano vê uma grande sombra na China e por isso menospreza e hostiliza a UE e a Europa da NATO. E para lá de ameaçar a integridade territorial de aliados (Dinamarca), a América parece até desdenhar a liberdade e a democracia (o culto da personalidade imposto por Trump, que quer ver o seu nome e a sua imagem por todo o lado nos EUA, evoca a paranoia grandiloquente de alguns ditadores).
Haverá mais revoluções ou voltas ao Sol. Façamos figas para que as próximas sejam mais brilhantes do que a que agora finda.
* Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra