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As estátuas e os sem-abrigo

“Qualquer dor, vê-se em cada esquina – Como um pobre sem-abrigo, d’olhos fechados – E a sua dor agreste o desanima – Chora em silêncio os seus pecados”.

 

Recordo perfeitamente a década de 1960/70, bem como o que lhe correspondia na vida económica, profissional, social e política. Eram tempos difíceis em todos os sectores da vida dos portugueses e já nesses tempos afirmava o povo que “quem for burro que vá p’ra moleiro”. Isto é, as pessoas teriam obrigação de sobreviver. Na verdade, havia muita pobreza e trabalho-à-vista só na agricultura e muito mal pago.

Acontecia que em todo o país havia os pobres-de-pedir. Nas cidades, nas vilas e nas aldeias. Nas freguesias, uns pediam esmola pelas portas às Segundas, Quartas e Sextas, e outros às Terças, Quintas e Sábados. Aos Domingos era para descansar e ir à Missa.

Nas vilas e nas cidades os pobres não tinham dia de descanso. Eram diários na aproximação aos beneméritos, que já conheciam. Grande número destes (crónicos?) mendigos, eram também os que dormiam na rua e onde houvesse um mínimo de protecção, porque o tempo não perdoava: se era frio, arranhava as peles, se era calor, dilatava-as.

Estes indigentes que a sociedade fabrica e que os políticos ostracizam, tantas vezes eram agarrados nesse tempo, sobretudo os da cidade, pela polícia e levados para as prisões se, estivesse anunciada a vinda de um político em visita à cidade. Os políticos do Estado Novo e os turistas (estrangeiros) não deveriam ver a indigência às claras na via pública.

E se os mendigos eram retirados da via pública, o mesmo acontecia com os políticos opositores ao regime salazarista: pelas duas/três da madrugada eram caçados em suas casas e levados pela p.i.d.e para a cadeia mais próxima, onde dormiam duas ou três noites, porque podiam “arranjar conflitos políticos” frente ao visitante do Estado.

Se podemos dizer que neste século XXI, em Portugal, não temos caça aos políticos porque vivemos em democracia, o mesmo podemos dizer quanto aos pobres, mas já dizemos que a pobreza em Portugal é um descalabro e os pobres sem-abrigo são uma absoluta realidade: segundo um estudo ultimamente anunciado, temos no país cerca de três mil pessoas sem-abrigo, devidamente localizados.

Infelizmente, não temos tido Governos competentes, sérios e justos. Um Governo atento ao povo que diz servir, não tem pobres-de-pedir e muito menos tem os sem-abrigo nas vielas da cidade. Um Governo ou um regime político justo, tem trabalho para todos e a todos dá possibilidades de ter tecto.

Sabe-se que há muita pobreza e pobres-de-pedir e sem-abrigo, porque querem viver dessa maneira. Outros serão até culpados por uma certa dose de preguiça, de revolta, de oportunismo, e outros porque silenciosamente, mandam trabalhar os outros. Que fazem p.e. pessoas com 40/45 anos, fisicamente bem, sentados à porta de certos centros comerciais a pedirem “uma moedinha” quando podiam trabalhar?

É verdade que há pobres em todo o mundo. Segundo a ONU existem 235 milhões de pessoas com privação alimentar. Mas o Mundo não é tão pobre que justifique profunda pobreza. Deus e a Natureza tudo vai criando para que o homem possa viver sem fome. E a Madre Teresa de Calcutá disse um dia que “se todo o homem levasse para casa o dobro daquilo que precisa para comer, muitíssimo mais ainda haveria de sobrar”.

Estamos no fim do ano e as festas de Natal e do Ano Novo, são vantajosas para que se lembre os pobres e os sem-abrigo. No tempo que passa, não há políticos para esconder, mas temos a pobreza para denunciar, nem que seja de cima dos telhados.

Por assim ser – liberdade de denunciar – verifica-se praticamente em todos estes anos, que a Comunicação Social em Portugal e a Igreja, denunciam e apontam as localidades onde existe a pobreza e os sem-abrigo.

Mas não chega, certas instituições, organizarem pedincha a nível nacional para dar aos pobres um saco de batatas e uns pacotes de arroz. Os pobres precisam sim, de poderem comprar uma cana de pesca para pescar, de um eido para semear as batatas e criarem animais domésticos para comer, adquirindo tudo isso com os frutos do seu emprego, do seu trabalho. Cabe ao Estado, aos Governos resolverem estes problemas da mendicidade, da indigência e dos sem tecto.

Como cristão não aceito a existência de pobres-de-pedir e muito menos pessoas sem-abrigo. Apenas se pode admitir um género de sem-abrigo: que são um D. Afonso Henriques, um Camões, um Fernando Pessoa, um Egas Moniz e todas as outras estátuas que testemunham serviço, solidariedade, valor e honra. Estes sim, são os únicos sem-abrigo que se aceitam em qualquer canto do país e do mundo.

 

(Santo Natal e Ano Novo, com Paz e Bem)

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)Artur

Artur Soares

Artur Soares

26 dezembro 2025