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Por Entre Linhas e Ideias

É o amor que dá sentido ao Natal? Esta crónica parte dessa interrogação para convidar à reflexão sobre o espírito natalício, para lá do que fazemos por hábito mais do que por convicção. Entre luzes, música e mesas cheias, o Natal fala muito de amor, mas pouco nos detemos a pensar se falamos do amor que se embrulha em papel brilhante e se mede pelo valor do presente ou daquele que se vive na atenção ao outro, no cuidado e na presença.

        Talvez seja boa ideia começar pelos gregos, para quem o amor não era uma realidade única, mas um conjunto de experiências distintas. Eros designava o amor do desejo, philia o amor da amizade e da proximidade, storge o amor familiar e ágape, talvez o mais exigente de todos, o amor gratuito e desinteressado. É este último que o Natal parece querer colocar no centro, mesmo que nem sempre saibamos como vivê-lo. Um amor mais próximo do cuidado do que da paixão, mais atento à fragilidade do que ao brilho, que se manifesta no acolhimento e na capacidade de se deixar afetar pelo outro

        Não é por acaso que uma das narrativas centrais desta época seja a dos Reis Magos, homens que não ficam em casa à espera de sinais evidentes, mas que partem, guiados por uma estrela incerta, levando consigo o pouco que têm de mais valioso. A sua missão não é conquistar nem possuir, mas reconhecer. Há nesta viagem uma ética que continua a interpelar-nos, a ideia de que vale a pena sair de si, atravessar desertos e abdicar do conforto para honrar algo que nos transcende. Não é isso que também fazemos quando regressamos à nossa terra nesta época para nos reencontrarmos com os nossos?

        A filosofia sempre olhou com alguma reserva para nascimentos milagrosos, mas nunca ignorou o seu significado simbólico. O nascimento de Jesus, lido filosoficamente, é uma provocação moral que inverte a lógica do poder e valoriza o pequeno, o pobre e o esquecido. Sob este olhar, Cristo surge como alguém que recusa a apropriação do outro e afirma a responsabilidade pelo outro, leitura que Nietzsche reconheceu em Jesus ao vê-lo como fiel a uma ética radical do amor e da não-violência, apesar da sua crítica ao cristianismo institucional.

        É também por aqui que a minha memória regressa a outros Natais, aos da infância, quando eu e os meus irmãos fazíamos o presépio com um cuidado quase solene. Havia algo de mágico na figura do Menino Jesus deitado nas palhinhas, um mistério silencioso que nos prendia o olhar e nos obrigava a abrandar os gestos. Ali ficava claro, mesmo sem palavras, que a força humana não se mede pelo poder ou pelo excesso, mas pela forma como cuidamos do que é vulnerável. A filosofia sempre soube disso e, como lembrava Immanuel Kant, a dignidade não depende da utilidade nem da força, mas do valor intrínseco de cada pessoa.

        A essa experiência juntava-se ainda a tradição de pôr o sapatinho na chaminé ou de pendurar uma meia na lareira, à espera de um chocolate ou de uma moeda. Gestos repetidos todos os Natais, cuja origem remonta a antigas lendas de generosidade associadas a São Nicolau, atravessando séculos e fronteiras. Mais do que esperar uma prenda, reconhecia-se que a generosidade, transmitida pelos pais e pelos que cuidam, estruturava a experiência do Natal. Hoje, essa filosofia parece ter-se deslocado, pois o Natal transforma-se muitas vezes numa corrida às compras, como se o amor precisasse de prova material para existir.

        O Natal faz-se também de inverno e de neve, elementos que completam o presépio vivo em que participamos. A neve voltou agora a cobrir o Gerês e o Alvão e, com ela, afirmou-se um espírito que convida à contemplação. As montanhas vestidas de branco devolvem-nos uma experiência de beleza que não pede explicação, apenas atenção, aquilo que Simone Weil entendia como uma das formas mais exigentes e mais puras de amor.

        Aos meus leitores lembro que esta é uma boa época para regressar aos livros e reconhecer que oferecer um livro continua a ser uma das melhores prendas de Natal, um gesto de valor inestimável. Para este período natalício, sugiro duas leituras que ajudam a pensar o amor para lá do sentimentalismo próprio da época, O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, e A Arte de Amar, de Erich Fromm, psicanalista e pensador social que refletiu longamente sobre as relações humanas, recordando-nos que amar nunca é um gesto automático, mas um risco assumido e uma forma de responsabilidade pelo outro.

        Caros leitores, pensemos no seguinte, porque é isso que nos conduz à pergunta final. Do ponto de vista ético, o Natal continua a colocar-nos uma questão incómoda sobre quem fica fora da fotografia enquanto celebramos, entre quem conta moedas, enfrenta a solidão ou permanece à margem, lembrando-nos que o amor anunciado nesta época exige escolhas e tem consequências. Convido-vos a pensar nisto:

 

Se o Natal é amor, a quem é que ele não chega?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

24 dezembro 2025