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O melhor presente de Natal

 

Era uma vez uma família humilde que vivia na Rua Direita, junto aos antigos Paços do Concelho e muito perto da Igreja Matriz de uma terra cheia de pergaminhos e de história. Como todas as famílias, preparava-se para o Natal, mas a escassez de recursos não lhe permitia comprar mais do que o bacalhau para a noite de consoada. Aliás, a ceia era ainda incerta, dado que a mulher se encontrava em fim de tempo e o parto poderia acontecer a qualquer momento... até na própria noite de Natal. Sem presentes para dar, esta família preparava-se, contudo, para receber o melhor dos presentes. 

Apesar de se chamar Aurora, essa mulher não fazia ideia de quando tal poderia ocorrer. Imaginava que as dores de parto viriam a ser intensas, mas, como todas as grávidas, sabia que a alegria pelo nascimento de um filho seria incomparavelmente maior. O momento tão ansiado acabou por acontecer pouco antes do romper da aurora, no solstício de Inverno e a poucos dias da celebração do Natal, a festa do verdadeiro Sol Nascente. 

Pelas 6h 45 do dia 22 de dezembro de 1968 – o sino tinha tocado festivamente um pouco antes, a convocar os fiéis para a Eucaristia do IV Domingo do Advento -, depois de nove meses no santuário materno, o menino, sem a noção de perda e de sofrimento que isso lhe acarretaria, ousou nascer. Madrugador e ousado são, por isso, dois adjetivos que se lhe aplicam bem, desde esse momento até hoje. Uns minutos depois, o sino assinalou o começo da primeira Missa da manhã (o povo chama-lhe a “Missa do cedo”) que, naquelas circunstâncias e por força dos acontecimentos, se configurava como uma verdadeira Missa do Parto.

Mal nasceu, o menino foi “envolto em panos” (Lc 2, 12) e aquecido com um calor difícil de igualar, o do amor familiar, numa casa de poucas condições, mas inundada de uma alegria indescritível. Os tempos eram de parcos recursos e as condições climatéricas não ajudavam, mas os pobres inventam sempre soluções para superar as adversidades. E foi o que aconteceu!

Não apareceram anjos nem a eles se juntou uma multidão do exército celeste (cfr. Lc 2, 8-14), mas a parteira fez de anjo e os vizinhos, no fim da Missa, qual exército terrestre, aglomeraram-se para saber se era menino ou menina. Parece estranho, mas o facto de ainda não haver ecografias fazia com que o mistério se mantivesse inteiro até ao dia da sua revelação, até que fosse possível contemplá-lo com os próprios olhos. E como a natureza não engana nem se engana, o brado soou no ar gélido dessa manhã de inverno: “É menino!”

Na já referida Rua Direita, à semelhança do que aconteceu com João Batista, muitos se alegraram com o seu nascimento (cfr. Lc 1, 14.58) e muitas lhe deram colo. Não sei se alguém terá perguntado: “Quem virá a ser este menino?” (Lc 1, 66). Por essa altura, não se perspetivava grande futuro para os filhos dos pobres e não se usava fazer dos recém-nascidos sócios de um clube ou de uma instituição. A preocupação maior era batizá-los. E foi o que aconteceu a 1 de janeiro de 1969, dia de Santa Maria Mãe de Deus. Nascido perto da Igreja, aquele menino passou a ser membro (mais importante do que sócio!) da comunidade cristã, depois de aí ter sido apresentado para ser batizado. Nada tendo, à época, para herdar, foi-lhe dada a suprema herança e se adensou a força o provérbio: “Ano novo, vida nova!”

Segundo o costume de então, os afilhados assumiam o nome do padrinho que, tal como Zacarias, sentenciou: “O seu nome é João” (Lc 1, 63). Contudo, Alberto, o pai, queria que o seu se perpetuasse no nome do filho. E foi, a madrinha, Maria, quem resolveu a questão: “Será João como o padrinho e Alberto como o pai”, numa solução sábia que evitou uma eventual tensão imprópria para tempos de concórdia e de paz, como só o Natal consegue ser.

Quando, a 7 de outubro de 1978 – estava para completar dez anos –, esse menino deixou a sua terra, a sua família e a casa de seu pai (cfr. Gn 12, 1) e ingressou no Seminário Menor de Braga, a fim de prosseguir estudos, poucos acreditavam que viesse a ter grande futuro. Alguém afirmou mesmo: “Não vejo loca de onde saia grande coelho!” É certo que os resultados da Escola Primária tinham sido auspiciosos e que a determinação era indomável (“Ou vou para o Seminário ou não estudo mais”, disse ele ao professor que lhe fez o exame da quarta classe), mas todos sabiam que não seria fácil suportar economicamente tais estudos. E não foi, mas com a ajuda de muitos e com o esforço pessoal do intrépido menino, o sonho tornou-se realidade. De facto, se “a Deus, nada é impossível” (Lc 1, 37), quando é para Deus, tudo se torna possível.

Tendo em conta o futuro, agora conhecido, desse menino, alguns, mais deterministas, pensarão que o destino estava traçado, mas o destino só o é depois de ter acontecido. Outros pensarão tratar-se de uma coincidência: “calhou de ser assim”. Se, para quem acredita, não há coincidências, mas sinais, penso ser preferível olhar para tudo isto como um sinal. 

Para concluir, resta-me desejar aos meus leitores um Santo e Feliz Natal. Permitir-me-ão também uma amigável advertência: se conhecerdes algum caso parecido ou se já descobristes a situação real que dá corpo, voz e rosto a esta narrativa, não penseis que se trata de destino ou de mera coincidência. É, antes, um sinal e uma oportunidade que vos são dados para pedir e agradecer a Deus o melhor presente de Natal!

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

22 dezembro 2025