“Tu que dormes a noite na calçada de relento. Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento. Tu que tens o Natal do sofrimento, da solidão […] Tu que pões um sabor amargo em cada doce que comprei […] Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher”. (Ary dos Santos, poeta).
A humanidade à medida que se vai afastando da mensagem plasmada na singeleza do Presépio, cada vez mais se aproxima do precipício. Ele que nos aponta para um Menino Deus, reclinado numa manjedoura, envolto numa aura de enlevo e ternura de seus pais, numa mensagem de paz e amor aos homens de boa-vontade. Algo que se vem perdendo no mundo de hoje, mas que se poderia reaver se aqueles que fomentam a violência deixassem de cultivar a cobiça e avareza.
A não haver emenda, prevê-se algo ‘amargo’ na doçura do Natal de 2025, sobretudo nos povos que habitam naquelas terras agrestes, cuja simbólica árvore natalina chamuscada irá ter, como enfeites, o desespero, a dor e morte. E as belas melodias natalícias poderão ser abafadas pelo troar das armas e dos estrondos da destruição. Com lares feitos em cacos, por onde entra a chuva e o frio, em lugar do calor afetivo e festivo que caraterizam a festa da família.
Um Natal cujas prendinhas e guloseimas à pequenada, próprias da época, não passarão de ‘amargos’ estilhaços dos explosivos que as vão matando por dentro e por fora. Frágeis criaturas que ao toque da sirene se refugiam em túneis ou nos escombros dos prédios em ruínas, privadas da liberdade. Sem esquecer os muitos jovens, mulheres e homens que vão procurando defender a sua Ucrânia da invasora Rússia e os que vão andar em bolandas a fugir ao perigo, mesmo em dia e noite de tão importante celebração. Dado que aquilo que esperam receber são miragens da paz que teima em não chegar, graças às manobras de propostas falhadas dos altos governantes. Nada comparado com o nosso país a viver em paz, mas que, mesmo assim, se sente o ‘amargor’ de ter cidadãos no limiar da pobreza, injustiçados e sem abrigo.
Idêntica ‘amargura’, poderá verificar-se nos países do Médio Oriente, como no Líbano e na martirizada Palestina. Sem esquecer o continente africano como, por exemplo, a Nigéria, onde a perseguição aos cristãos vem sendo uma realidade. Com as Igrejas Católicas, clínicas, escolas e habitações incendiadas. Tendo já sucumbido para cima de 7.000 cristãos às mãos dos terroristas, por motivos de vingança e desejos de poder. Pois, segundo estima a ONU, cifra-se em 35 mil as pessoas mortas e em 2 milhões as deslocadas, fora os que neste Natal vão continuar a perecer à sede e à fome.
Os mesmos massacres ao povo cristão se vão sucedendo no Sudão, Moçambique, R.D. do Congo e em outros países do globo de que, apenas, se ouvem referências ao de leve nos nossos média sobre o flagelo por que vêm passando os milhares de crentes. Enquanto as sociedades consumistas, nesta quadra, se vão empanturrar de comida, bebida e sumptuosos gastos de dinheiro em coisas supérfluas. Esquecendo-se de Cabo Delgado onde o povo, afeto ao festejado, continua a sentir as agruras provocadas pelos ataques e assassinatos perpetrados pelo extremismo islâmico. Deixando essas pessoas deserdadas dos seus lares e colheitas, o que faz com que haja mais de 57.000 deslocados. Gente que neste Natal sentir-se-á infeliz.
Por isso, entendo que os sinais aqui descritos são bastante elucidativos dos ataques aos fiéis do cristianismo. Sobretudo os mais evidentes que aportam a Portugal, a coberto da modernidade, cuja intenção é a de nos fazer engolir gato por lebre. Daí, a necessidade de ser quebrada a atual complacência perante os ímpetos anticatólicos que campeiam por aí, sem que haja qualquer reação por parte de quem pastoreia a cristandade. É que eu, que tenho ouvidos e leio, não posso ignorar o silêncio a este extirpar da simbologia natalícia, nas cidades, vilas e aldeias, alusiva ao nascimento de Jesus e à Sagrada Família de Nazaré.
Votos de um Santo Natal