Percorrido um longo e articulado trabalho colegial, e após a aprovação do Papa Leão XIV, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou, no passado dia 4 de novembro, uma Nota doutrinal sobre alguns títulos marianos referentes à cooperação de Maria na obra da salvação, cuja leitura vivamente recomendo.
Intitulada Mater Populi fidelis (“Mãe do Povo Fiel”), esta Nota não pretende apagar a devoção a Maria nem negar o valor de tradições antigas, como alguns quiseram fazer crer1. Pelo contrário, valoriza a devoção popular, entendida corretamente e em harmonia com a fé cristã, assim como acompanha e orienta os fiéis para que a linguagem usada na Igreja reflita a doutrina de forma clara e evite interpretações erróneas ou equívocas. É por isso que clarifica o sentido teológico e bíblico de vários títulos marianos2 da tradição e da devoção popular, preserva a doutrina católica sobre a função única de Cristo como Redentor e Mediador e orienta a devoção dos fiéis para que seja equilibrada e fiel à Revelação.
Começa por dissertar sobre a cooperação de Maria na obra da Salvação, apresentando-a como mãe no plano da graça, unida de modo singular ao trabalho de Cristo, desde a Encarnação até à Paixão e Ressurreição. Neste âmbito, destaca-a como a primeira discípula de Jesus, modelo de fé e de obediência ao plano de Deus. Serve-se, para isso, da Bíblia, dos escritos dos Padres e Doutores da Igreja, dos concílios ecuménicos, dos elementos da tradição oriental, da reflexão teológica e do pensamento dos últimos Pontífices.
De seguida, o texto analisa diversos títulos marianos, valorizando alguns deles e alertando para o uso de outros. Títulos como “Mãe dos fiéis” (n.ºs 34-44), “Mãe da graça” (n.ºs 45-75) e “Mãe do povo fiel” (n.ºs 76-80) são considerados positivos e adequados, dado que exprimem a dimensão maternal de Maria em relação aos crentes, mas é necessário que não rivalizem com a obra de Cristo. O mesmo não acontece, porém, com o título de “Corredentora”: “Levando em consideração a necessidade de explicar o papel subordinado de Maria a Cristo na obra da Redenção, é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria. Este título corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo e, portanto, pode gerar confusão e desequilíbrio na harmonia das verdades da fé cristã, já que ‘não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar’ (At 4, 12). Quando uma expressão requer muitas e constantes explicações para evitar que se desvie de um significado correto, não presta um bom serviço à fé do povo de Deus e torna-se inconveniente” (nº 21).
Quanto ao título de “Medianeira de todas as graças”, pede-se cautela, dado que a expressão pode ser teologicamente problemática, se for entendida de forma a supor que Maria é, por si mesma, a distribuidora universal da graça. Pode, contudo, haver um sentido aceitável – a ajuda materna de Maria na nossa vida espiritual) –, mas sempre subordinado a Cristo, a fonte e a mediação de todas as graças. Em suma, aceita-se o uso deste título quando exprime uma mediação mariana inclusiva e participativa que glorifica o poder de Cristo3.
O documento termina afirmando que Maria “é a Mãe do Povo fiel, que ‘movida por uma ternura amorosa, caminha no meio do seu povo e cuida das suas angústias e vicissitudes’4” (nº 76). E acrescenta que “a proximidade da Mãe produz uma piedade mariana “popular” que tem expressões diversas nos distintos povos. Os mais variados rostos de Maria (...) são formas de inculturação do Evangelho que refletem, em cada lugar da terra, ‘a ternura paterna de Deus’5, que chega até às entranhas dos nossos povos” (nº 79).
Em síntese e para concluir, esta Nota doutrinal reafirma a importância de Maria como Mãe do Povo fiel; reconhece a sua cooperação única, mas sempre subordinada, à obra redentora de Cristo; adverte contra o uso imprudente de títulos que possam obscurecer a centralidade de Cristo; valoriza a devoção popular, mas com precisão teológica e pastoral. Por todas estas razões, torna-se imperiosa a sua leitura.
1As reações tão inflamadas e desajustadas de alguns, por causa dos títulos de “Corredentora” e “Medianeira de todas as graças”, levam-me a duvidar se, de facto, leram o documento em causa, a menos que haja outro tipo de motivações para reagirem dessa forma.
2Assim se designa os nomes e expressões usados para se referir a Maria.
3As reações tão inflamadas e desajustadas de alguns, por causa destes dois últimos títulos, levam-me a duvidar se, de facto, leram o documento em causa.
4Papa Francisco, “Mensagem para a XXXVII Jornada Mundial da Juventude (15 de agosto de 2022)”, Acta Apostolicae Sedis 114 (2022), p. 1255.
5Papa Francisco, “Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (1 de janeiro de 2024)”, Acta Apostolicae Sedis 79 (2024), p. 20.