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A arte de não poder tudo: Elogio do descanso contra a tirania da performance

Vivemos numa sociedade que proclama a liberdade, mas organiza a vida como um campo de treino permanente. Desde cedo se aprende que o valor de cada um se mede pela capacidade de produzir, responder a tudo, estar sempre disponível. Multiplicam-se as promessas de realização: basta gerir melhor o tempo, aperfeiçoar o corpo, fazer mais formação, controlar as emoções, encontrar a técnica certa. O resultado, porém, é um cansaço difuso que não é apenas físico: é a exaustão de ter de ser continuamente “melhor versão de si mesmo”, sob o olhar de um tribunal social.

O que oprime hoje o ser humano já não é tanto a proibição, mas a obrigação de poder tudo. A antiga autoridade que dizia “não deves” foi substituída por uma voz mansa que repete “tu consegues, se quiseres”. À superfície parece motivação; na profundidade instala-se uma culpa surda: se não alcanço os padrões de sucesso ou de felicidade, a responsabilidade é apenas minha. Esta interiorização da exigência transforma cada pessoa em inspetora de si própria. Não são necessários grilhões externos quando a vigilância se instalou dentro da consciência, sob a forma de autoacusação permanente.

Esferas que deveriam ser gratuitas – família, escola, cultura, até experiências religiosas – reproduzem a mesma lógica. Pais sentem-se falhados se os filhos não brilham em tudo; escolas que falam de formação integral vivem obcecadas por rankings; comunidades medem a vitalidade por atividades e visualizações. Assim, até a relação com o transcendente deixa de descansar e transforma-se em regime de metas espirituais.

Fazer a apologia do descanso, neste contexto, é um gesto humano e subversivo. Descansar, no sentido forte, não é apenas dormir mais ou fazer uma pausa entre duas jornadas; é experimentar que a vida não precisa de ser justificada a cada instante. Descansa quem descobre que o seu valor não depende do currículo, do salário, da forma física ou da reputação digital. Descansa quem se reconhece finito e não sente vergonha dos seus limites. Descansa quem pode dizer “chega por hoje” sem culpa, porque percebe que o mundo não depende exclusivamente do seu desempenho.

Este descanso pede espaços concretos: tempo sem finalidade útil, conversas sem agenda, silêncio que não tem de ser convertido em “conteúdo”, ócio que não é fuga, mas disponibilidade. A contemplação – de uma paisagem, de uma obra de arte, de um exercício de meditação – desmonta o automatismo da produção. O corpo, quando escutado, indica o ponto em que o ritmo deixou de ser humano para se tornar mecânico. Uma sociedade que não protege estes espaços transforma-se numa fábrica de ansiedade.

Recusar o que escraviza é hoje um ato de cidadania. Dizer não à hiperconectividade, aos dias de trabalho intermináveis, à idolatria da produtividade não é capricho de privilegiados; é defesa da dignidade! Isto passa por questionar modelos de trabalho que consomem o melhor das pessoas e devolvem apenas fadiga; por reivindicar tempos de descanso reais; por pensar instituições que não tratem os cidadãos como simples recursos descartáveis.

Também no plano simbólico a resistência é urgente. Precisamos de histórias e rituais que celebrem a fragilidade e o limite, em vez de alimentarem o mito do herói infalível. Quando a religião, qualquer religião, se põe ao serviço desse mito, deixa de libertar. Quando, pelo contrário, lembra que cada pessoa é mais do que aquilo que faz, sente ou consegue, torna-se aliada de uma cultura do descanso.

No fim, a questão é decisiva: queremos organizar a sociedade em função do que o ser humano produz ou em função do que o ser humano é? Se optarmos pela primeira via, aceitaremos como inevitável o cansaço e a violência subtil contra quem não acompanha o ritmo. Se ousarmos escolher a segunda, teremos de repensar prioridades e expectativas. Mas talvez descubramos então algo essencial: que o descanso não é um luxo, é a linguagem em que a liberdade aprende a dizer o seu nome.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

13 dezembro 2025