De que seria feita a nossa vida sem a presença dos mais velhos? Quero dedicar esta crónica como quem presta uma homenagem aos nossos avós, porque foram eles que moldaram grande parte da nossa educação muito antes de termos consciência disso. Esta pergunta regressa sempre que observo o modo como o tempo se desenha no rosto de quem me é próximo. Perguntar pelos mais velhos é, no fundo, perguntar pela própria humanidade.
Ao aprofundar esta reflexão, percebo que os avós são aqueles em quem o tempo se torna verdadeiramente humano e compreensível, educando-nos com a serenidade de uma experiência acumulada que revela, sem pressa, que o essencial se transmite quase sem ser dito. As histórias que ouvi ao serão, muitas vezes junto à lareira, ensinaram-me mais do que muitos dos manuais escolares que encontrei na escola. Recordo as palavras do filósofo francês Paul Ricoeur, que dizia que “somos contados antes de nos contarmos”, e reconheço profundamente esta verdade sempre que lembro as narrativas simples e as lendas transmitidas pelos nossos avós. A presença deles é estruturante, porque é com eles que aprendemos a compreender a vida de forma mais sábia e profunda.
É também por isto que valorizo a sabedoria popular que herdámos. Nas cantilenas, nos provérbios e nas pequenas histórias do folclore vive uma filosofia discreta que resiste porque continua a ser útil e prática. O poeta popular, António Aleixo, dizia com desarmante sinceridade: “Eu não tenho vistas largas nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas, lições de filosofia”. Nesta quadra encontro mais lucidez do que em muitos discursos eruditos, porque nela vive a aprendizagem feita com a própria existência. Esta forma de sabedoria aproxima-se do que Mircea Eliade, o grande pensador romeno, descreve no seu clássico O Mito do Eterno Retorno, que muitos de nós lemos ao longo da vida. Neste livro, explica como as sociedades tradicionais habitavam um tempo circular, repetindo gestos carregados de significado. Hoje percebo que era isso mesmo que acontecia à minha volta, muito antes de eu reconhecer a importância desses rituais que já ofereciam uma compreensão do nosso quotidiano.
É nesse sentido que me toca profundamente a forma como algumas culturas tratam os seus idosos. No Japão, os mais velhos são vistos como um bem precioso da comunidade, e o Dia do Respeito pelos Idosos é mais do que uma celebração, sendo antes um gesto de gratidão para com quem carrega uma vida cheia de experiências. Este exemplo recorda-nos que ainda temos muito a aprender sobre a dignidade e o valor da velhice.
E porque esta compreensão da velhice não vive apenas na reflexão ou na experiência vivida, também a arte reforça muitas vezes esta ideia, lembrando-nos a necessidade de reconhecermos toda a dignidade deste tempo da vida. Convido os leitores a verem no YouTube Geri’s Game, uma animação produzida pela Pixar e realizada por Jan Pinkava, que retrata um velhinho a jogar xadrez consigo próprio num jardim. A simplicidade desta pequena história e a delicadeza com que apresenta a velhice revelam com verdade aquilo que este texto procura afirmar. Recomendo que a vejam com calma e que deixem que ela desperte em cada um de nós uma reflexão serena sobre o valor profundo desta etapa da existência.
Peço aos leitores que olhem com atenção para o modo como hoje tratamos a velhice, porque é difícil ignorar que vivemos presos a uma cultura que idolatra a juventude quase como um ideal absoluto, temendo cada ruga como quem receia algo incómodo. A velhice tornou-se sinónimo de vulnerabilidade, como se a vulnerabilidade não fosse precisamente o traço mais humano de todos! A obsessão desta sociedade moderna acaba por reproduzir, de certo modo, o destino trágico de Titono, o homem que pediu a imortalidade aos deuses e se esqueceu de pedir a juventude, sendo condenado a envelhecer sem fim até se tornar invisível. E pergunto-me muitas vezes se não estaremos nós também condenados a este destino simbólico, incapazes de aceitar a idade como parte da nossa própria biografia. Lembro-me então das palavras de Epicuro, que advertia que “quem não se contenta com pouco não se contenta com nada”, e percebo que a obsessão pela juventude eterna é uma forma subtil de negar a vida tal como ela é.
Foi por isso que, ao escrever esta crónica, voltei a pegar no livro A Velhice, de Simone de Beauvoir, para vos convidar à consciência de que envelhecer faz parte da condição humana e que afastar os mais velhos do nosso horizonte é uma forma subtil de recusarmos quem somos. Nesta quadra natalícia, deixo um convite aos leitores para que este seja também um tempo de celebração dos avós, cuja presença generosa, seja viva ou guardada na memória, continua a ser essencial nas nossas vidas.
- Queres valorizar só a juventude ou também a sabedoria dos mais velhos?