Estávamos a 26 de junho de 2023 quando a má notícia caiu como uma bomba para quem tem o mínimo de respeito pelos livros: a Câmara Municipal de Braga tomava a decisão histérica de trocar uma feira do livro com 31 edições, com carácter público e universal, por um festival literário, organizado por uma entidade privada, tendencialmente elitista. Nada contra a ideia do “Utopia”, tudo contra o fim de uma ideia materializada no início da década de 90, do século passado, para a qual contribuíram de forma clara Jorge Cruz, José Manuel Mendes e José Teixeira, com a criação do Grande Prémio de Literatura em 1995. Achar que uma Feira do Livro é, no essencial, um evento “comercial”, retirando-lhe toda a componente pedagógica, lúdica e de encontro de escritores e de leitores com o livro, é de quem, no mínimo, nada percebe sobre o modo de ser e estar com o valor dos livros e o seu significado para o crescimento e desenvolvimento de cada um e de uma sociedade nas suas diferentes dimensões. Nem vale apena sequer valorar aqui a sua componente Memória porque estaria a perder tempo para quem há dois anos e meio argumentou desta forma para acabar com uma feira que era já um marco nacional, constando da agenda de escritores que aqui apresentaram os seus livros, de críticos literários que por aqui passaram e dos milhares de bracarenses e minhotos e não só que a visitavam. É por isso, que sem qualquer reticência, se saúda a decisão do novo presidente da Câmara Municipal que, acredito, secundado pela vereadora da Cultura, contrariou esta decisão anacrónica de forma convicta, numa altura em que se assiste de forma muito positiva, ao crescimento do mercado livreiro e ao número de leitores em todos os segmentos. Para termos a cereja no cimo do bolo só precisamos é que surjam em Braga projetos tão arrojados e com tanto sucesso como o da livraria Centésima Página. Não sei se teremos uma Feira em julho ou noutra altura do ano, sei é que o seu regresso ao centro da cidade é um reencontro com os cidadãos, com a promoção do pensamento livre, da expressão literária na sua mais que perfeita assunção: o papel numa era digital e de influência da Inteligência Artificial que se oferece para escrever o que quisermos. Talvez Ricardo Rio seja um entusiasta desta nova forma, não faço ideia, nunca lhe perguntei, como também não sei qual foi o último livro que leu nem quando foi a última vez que entrou numa livraria nem se quer se é seu hábito dar um livro, ou deixá-lo num café depois de o ler para outros que não o podem adquirir terem a oportunidade de o fazer. O que sei é que voltamos a ter uma Feira e sobre isso importa referir o enorme contributo de Jorge Cruz que, anteontem, apresentou o livro “Do Sonho à Realidade”, uma obra que nos relata a sua experiência à frente da organização da Feira e os momentos mais marcantes que a memória não deixou esquecer. O autor, a propósito recorda no prefácio, o valor desta organização ímpar: “Desempenhava, por essa razão, um papel crucial, na medida em que contribuía para o desenvolvimento cultural da cidade, tanto mais que era reconhecidamente um dos mais relevantes eventos literários, quer da região, quer do país, sendo por isso um ponto de encontro obrigatório para os amantes da literatura. Ou seja, recusava ser apenas mais um espaço de comercialização de livros, assumindo desde o início a promoção e o intercâmbio cultural, através dos agentes culturais - autores, editores, especialistas de diversas áreas do conhecimento que conseguia reunir, e, naturalmente, dos leitores.” É isso que se espera que volte a desempenhar quer de forma natural, sem falsas modéstias, mas, igualmente, sem altivez nem arrogância, iluminada pela utopia que tanta falta faz, combatendo a distopia que marca a tendência de um tempo em que o livro, em muitas sociedades começa a ser visto, de novo, como um inimigo a abater.