Ó Ciclope, perguntaste como é o meu nome famoso. Vou dizer-to, e tu dá-me o presente de hospitalidade que prometeste. Ninguém é como me chamo. Ninguém chamam-me a minha mãe, o meu pai e todos os meus companheiros.
Odisseia, canto IX, est. 365
Quando se fala tanto de migrações, apenas com números e com certa indiferença, esquecem-se os aspectos demográficos, emocionais, psicológicos, humanos, que são os mais importantes, pois se trata de pessoas que emigram, se deslocam.
Por vezes desvalorizam-se esses aspectos humanos, o psicológico (psique, alma), porque nem tudo são estatísticas, gráficos e algoritmos. É importante olhar ao “coração”: ninguém emigra por prazer, mas tem consequências primeiramente no próprio – o imigrante.
Há cerca de 4000 anos, outras civilizações foram mais sensíveis do que as nossas aos sofrimentos dessas pessoas e plasmaram na figura de Ulisses o mito célebre do deslocado, o viajante que não logra chegar ao seu destino “naufraga na solidão, no medo, indiferença e na adversidade”.
Quando se ouve certos discursos, alguns de boa vontade, parece mesmo tratar-se de um tráfego de contentores, de mercadorias, ou de sacos de batatas que se trazem e se levam… mas não de movimentos, levas de seres humanos, de pessoas?!...
Parece existir uma certa desumanização, esquecendo o que significa, porquê e como se vive, no corpo e na alma, esta situação?… O facto desta “desumanização” na sociedade, levou ao que se chama o “síndrome de Ulisses”, no intuito de voltar às raízes do humanismo grego e reumanizar a emigração: colocar-se na pele dessas pessoas, equacionar os seus dramas silenciosos, as situações extremas em que chegam: sem língua, casa, sem amigos, sem dinheiro, por vezes, olhados com indiferença, de soslaio,ou concorrente.É certamente muito duro.Como acolher,integrar e entender?
O importante é saber quem são,de onde vêm, o que trazem, por que vêm, como, porquê?
Existe, como diz um autor, o perigo de “reificar” (e deificar) os dados. Não se nega o valor, ou desafio, mas temos de ir mais além. Esta experiência marca toda a vida, num mundo em constante e ciclópica velocidade e determina uma cultura, aculturação, ou orientação.
As relações entre o estresse social social e mental constituem hoje um tema muito atual na investigação e atenção clínica (mobbing, burnout…) com tantos estressores psicossociais, quantitativa e qualitativamente, de consequências graves na saúde mental, social e moral.
“Emigrar está convertendo-se para milhões de pessoas num processo que possui níveis de estresse tão intenso que superam a capacidade dos seres humanos. São candidatos a virem sofrer o síndrome crónico do imigrante conhecido como de Ulisses (fazendo menção ao herói grego que sofreu inumeráveis adversidades e dissabores longe dos seus entes queridos, que Homero deixou impressos na Odisseia. O conjunto de sintomas que formam e conformam, formatam este síndrome constituem um problema de saúde mental emergente nos países de acolhimento dos emigrantes”, diz o neuropsicólogo Joseba Achotegui no seu livro El Síndrome de Ulises contra la deshumanización de la migración-Mediciones, 2025.
Porquê tantas atoardas, visões tão estreitas e desumanas num país que foi/é de emigrantes, precisa deles, porque sofre também as consequências de políticas erradas, egoísmos e inverno demográfico?É verdade. De quem, a culpa? Mas terá também consequências a todos os níveis, mesmo depois. Estaremos todos/as conscientes disso?!...