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Por Entre Linhas e Ideias

E se o destino for só uma desculpa bem contada? Há dias em que me dá mesmo jeito acreditar no destino. Quando tudo corre mal, penso que, se calhar, tinha de ser assim. E quando corre bem, também gosto de imaginar que o universo conspirou a meu favor. No fundo, o destino é um tipo generoso, leva com as culpas e ainda me deixa os méritos. Talvez seja, afinal, a melhor desculpa de sempre!

Convido os leitores a entrarem na nossa farmácia filosófica, onde talvez encontremos um remédio para esta velha dúvida. Nas prateleiras do pensamento repousam dois frascos diferentes, e talvez em algum deles esteja escondida a cura. O primeiro vem de Espinosa, que no século XVII dizia que a liberdade é apenas uma ilusão. Segundo ele, “os homens julgam-se livres porque têm consciência das suas ações, mas ignoram as causas que as determinam”. No fundo, somos como engrenagens de uma máquina cósmica, movidos por leis que não controlamos. Tudo o que chamamos decisão é apenas o reflexo de causas anteriores, como uma bola que rola porque alguém a empurrou antes. Ainda assim, há algo em mim que se insurge contra essa visão, talvez o mesmo espírito livre que levou Sartre, o filósofo que recusou o Prémio Nobel da Literatura, a virar do avesso as ideias feitas do século XX e a defender que a liberdade não é uma ilusão, mas a nossa própria condenação. Dizia que “o homem está condenado a ser livre”, e eu percebo bem o que ele queria dizer, porque mesmo quando não escolho, já estou a escolher. Por exemplo, mesmo quando não decidimos, já estamos a decidir, como naquela situação inevitável em que escolhemos o prato errado no restaurante e o destino, impassível, se recusa a trocar o pedido.

Entre Espinosa e Sartre, confesso que vou oscilando. Há dias em que preferia largar o leme e deixar a vida decidir por mim, e outros em que acredito ser o autor da minha própria história. Reparem, caros leitores, que vivemos rodeados de opções, sobre o que comer, que curso seguir, com quem estar ou o que ver na Netflix. E, mesmo assim, quantas vezes me ouço dizer “o que tiver de ser, será”? É o piloto automático da vida, a forma mais cómoda de não ter de escolher.

O destino, no fundo, é uma boa história, e nós adoramos boas histórias. Talvez por isso eu prefira acreditar que há um sentido qualquer nisto tudo, porque aceitar que é só coincidência faz perder a piada à história. No fim de contas, é muito mais conveniente para nós, porque dizer “foi o destino” soa sempre melhor do que admitir “meti os pés pelas mãos”.

Se há sítio onde o destino se diverte à grande, é no futebol! Basta lembrar aquele penálti perfeito em que a bola não entra e vai direitinho ao poste. O jogador suspira “ufa, que azar”, enquanto o guarda-redes, do outro lado, exclama “ufa, que sorte”. No final, tudo depende de quem olha para a jogada, e talvez o destino não esteja nas estrelas, mas nas interpretações que fazemos dos postes da vida, onde a bola, às vezes, entra e outras não. E, claro, há sempre quem jure que é tudo fado, sobretudo quando o clube do coração perde.

Talvez o segredo esteja, como sugeria Leibniz, em conciliar as duas perspetivas, pois “vivemos no melhor dos mundos possíveis”, e o importante é continuar a seguir em frente, fazer o que podemos e aceitar o que não controlamos. Lembro-me da lenda de Plutarco sobre o barco de Teseu, preservado durante séculos para celebrar a sua vitória em Creta contra o Minotauro. Diz-se que, ao longo do tempo, nas viagens que comemoravam essa vitória, as tábuas do barco se foram gastando com o mar e os anos, sendo substituídas uma a uma até nada restar do original, e quando a última foi trocada surgiu a pergunta inevitável sobre se continuava a ser o barco de Teseu ou se já era outro. Talvez a vida seja assim, feita de mudanças e permanências, entre o destino e a escolha, enquanto seguimos a navegar.

No fim de contas, se o destino existe, que espere sentado, porque ele pode saber o fim, mas eu divirto-me a escrever o meio.

Termino apelando a que não deixem este dilema por resolver e, por isso, lanço a questão da semana, convidando os nossos leitores a discutirem, a discordarem e a pensarem juntos sobre quem tem razão, se Espinosa ou Sartre:

Afinal, a liberdade é uma ilusão ou uma possibilidade?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

15 outubro 2025