Quem sentia, sabia e, por vezes, vivia o verão como um tempo dedicado às ditas festas religiosas, agora é confrontado com outra religiosidade, a dos festivais de música, associados mais recentemente à proliferação de ‘noites brancas’, como expressão de algo mais do que meramente coincidente ou ocasional… Algo desponta, ainda não o vimos?
1. Embora as ‘festas religiosas’ serpenteiem as modas, ainda conseguem conter algum número dedicado à religião, mas percebemos – na teoria e, sobretudo, na prática – que algo é realizado ainda em forma ritual, escapando algumas pontas ao sentido cristão das mesmas. Nota-se que as pessoas correm pela diversão, movimentam-se pela comida (nem sempre nas melhores condições higienossanitárias) e servem-se numa espécie de ponto de convivência social e popular. De facto, os números mais caros – nos custos e nas façanhas de cartaz – das ‘festas religiosas’ são os ‘artistas e cantores’, muitos deles sobrevivendo à custa dos espetáculos que vão fazendo na província: funciona com o ganha-pão para o resto do ano, se não forem convidados das televisões.
2. É longa e quase fastidiosa a lista dos festivais de música, por onde deambulam muitos dos novos ‘religiosos’, cujo culto tem tanto de surpreendente, quanto de exotérico. Eis um resumo dos festivais mais significativos ou intencionalmente relevados (atendendo às marcas e produtos de suporte): primavera sound Porto (junho), meo kalorama (junho), em Lisboa, nos alive (julho), em Algés, meo marés vivas (julho), em Vila Nova de Gaia, sol da caparica (agosto)… e outros festivais como sumol summer fest (julho), na Costa da Caparica, cool jazz festival (julho), em Cascais e o vagos metal fest (agosto), vodafone Paredes de Coura (agosto)… Os custos de participação nestes eventos andam em média pelos 150 euros/pessoa… e muitos percorrem-nos todos, qual romaria dos seus ‘santos’ preferidos…
3. Algo mudou nos tempos e nos costumes. As multidões que participam nos festivais de verão significam mais do que meros adornos e do que interessados na música. Há quem associe a estes festivais outros ingredientes mais ou menos lícitos e em conformidade com a moral. A velha e quase insinuosa correlação entre música-sexo-drogas não estará presente em muitos destes festivais? O leque algo entre o juvenil e o acinzentado capilar, não revelará saudade destes últimos e procura de experiências dos mais novos? Não andaremos a promover, nestes festivais, uma espécie de sociedade hedonista sem responsabilidades e ao sabor de um materialismo de vida mais difuso?
4. Estamos a semear e haveremos de colher, mais cedo do que tarde. Em muitos destes festivais – de verão e não só – percebe-se uma onda cultural como que alicerçada numa visão hedonista da vida, fundada em valores em grande parte servidos numa conceção materialista da pessoa e quase a roçar uma atitude epicurista da vida, notando-se ainda a presença de ingredientes soltos das amarras morais/éticas, segundo uma perspetiva de vida mais conservadora e tradicional. As ‘romarias’ de festivaleiros quase nos dá a impressão que os roteiros correspondem a procuras em bolha, mesmo que as temáticas possam ser pouco diversificadas. Há festivais como largas dezenas de anos, emergindo outros ao sabor dos gostos e das tendências musicais internacionalistas. Sem precisarmos de estar muito atentos vemos certos ‘gurus’ musicais deambulando pelas mais diversas partes do globo, espalhando a mensagem e insuflando tendências, modas e correntes de vida. Mesmo se alguns dos festivais clássicos – sudoeste e super rock – não se tenham realizado este ano, a onda continua rolar…
5. O que faz correr tanta gente para estes festivais musicais de verão? Qual o segredo do sucesso de tantos destes momentos com algum risco e visualização? Quem convoca quem e como se dá o processo de aglutinação de gentes de tantas procedências sociais, culturais e até económicas? Haverá alguma ideologia que congrega tantas vontades e interesses? Como é feita a segurança de géneros tão dispares quão antagónicos? Como se explica esta mistura de idiossincrasias? Já se apurou, a sério, o movimento económico de tais eventos? Seremos capazes de parar para tentar discernir tudo isto que move milhões na época de verão?
Urge perceber este fenómeno religioso novo, envolvente e sedutor!