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“Não eu, mas Deus”

 


 

Em virtude do falecimento do Papa Francisco, no passado dia 21 de abril, a canonização de Carlo Acutis, agendada para 27 desse mês, foi adiada, vindo a acontecer, como sabemos, no passado dia 7 de setembro, em cerimónia presidida pelo Papa Leão XIV, na Catedral de S. Pedro (Vaticano).

Filho de Andrea Acutis e de Antonia Salzano, Carlo nasceu em Londres, a 3 de maio de 1991, e aí foi batizado três semanas depois. Regressado a Itália, com apenas quatro meses, foi educado na fé cristã pela família e pelos diversos colégios católicos que frequentou.

Desde tenra idade, demonstrava uma fé profunda, materializada num amor incomum por Deus e pela Eucaristia. Ia à missa diariamente1, rezava o Rosário, adorava o Santíssimo Sacramento e confessava-se regularmente (uma vez por semana). Para além disso, era um jovem alegre2 e muito sensível para com os pobres e os marginalizados. Em tudo o que fazia e nas mais diversas circunstâncias, afirmava sempre: “não eu, mas Deus”.

Tornou-se mundialmente conhecido por, com apenas onze anos, ter começado a catalogar, num site por ele criado e depois traduzido em várias línguas, os milagres eucarísticos e as aparições marianas. Ao usar a tecnologia para este efeito, tornou-se pioneiro na evangelização online e foi, por isso, declarado “padroeiro da internet”.

Quando lhe foi diagnosticada uma leucemia fulminante, Carlo disse que oferecia o seu sofrimento “pelo Papa e pela Igreja”. E, pouco antes da sua morte, afirmou: “Estou feliz por morrer, porque vivi a minha vida sem desperdiçar um minuto com coisas que não agradam a Deus”.

Faleceu a 12 de outubro3 de 2006, em Monza (Itália), e foi sepultado, por expressa vontade sua, em Assis, vindo depois a ser trasladado para a Igreja de Santa Maria Maior (Santuário do Despojamento), onde se encontra o seu corpo, envergando t-shirt, jeans e ténis.

As movimentações para o reconhecimento da sua santidade começaram logo após a morte, vindo a ser declarado Servo de Deus, em 2013, e Venerável, em 2018. Depois de lhe ter sido atribuído o milagre da cura de uma criança brasileira (Campo Grande – Mato Grosso do Sul), que sofria de doença no pâncreas, o Papa Francisco beatificou-o, no dia 10 de outubro de 2020, em Assis, dizendo que Carlo Acutis era o modelo da “santidade da porta ao lado”. No dia 23 de maio de 2024, o mesmo Papa reconheceu o segundo milagre4 necessário para a canonização.

No passado dia 7, ao iniciar a cerimónia de canonização, o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério da Causa dos Santos, fez uma síntese preciosa da vida de Carlo: “era um adolescente alegre e extrovertido, de bom coração. Não escondia a sua fé e o seu amor por Jesus. Estava sempre disposto a ajudar um colega necessitado e era amigo dos pobres da sua vizinhança, dando-lhes parte de sua mesada quando pediam ajuda. Ele costumava dizer: ‘Estar sempre perto de Jesus, esse é o meu projeto de vida’. Enquanto passava parte das férias de verão em Assis (Perúgia), adotou a espiritualidade franciscana de alegria, contemplação e respeito pela criação, busca pela paz e proximidade com os mais necessitados”.

Na homilia, o Papa Leão XIV afirmou que “os santos Pier Giorgio Frassati5 e Carlo Acutis são um convite dirigido a todos nós – especialmente aos jovens – a não desperdiçar a vida, mas a orientá-la para cima e a fazer dela uma obra-prima”, palavras que fazem vir à memória uma das expressões mais felizes e conhecidas do jovem santo: “todos nascem como originais, mas muitos morrem como cópias”.

Sem necessidade de romancear ou sublimar nada, pois a história recente o documenta com rigor, a canonização de Carlo Acutis é um reconhecimento de uma vida intensa e exemplar, no que à fé e às virtudes diz respeito. É também uma mensagem estratégica que a Igreja deixa aos jovens de hoje, da era digital, propondo Carlo como modelo de santidade. Além disso, mostra que é possível viver a fé com alegria, autenticidade e modernidade; que ainda há exemplos de pureza, generosidade e amor à Igreja, no meio de uma geração distraída e até cética. A sua canonização agita as águas e sugere que não há uma idade definida para corresponder à vocação fundamental e mais sublime recebida no batismo, a da santidade.


 

1“A Eucaristia é a minha estrada para o céu” é uma das suas mais famosas expressões.

2A propósito, afirmava que “a tristeza é o olhar voltado para si mesmo, a felicidade é o olhar voltado para Deus”.

3Como acontece com quase todos os santos, é no dia da sua morte que se celebra a respetiva memória litúrgica.

4Este milagre terá acontecido em 2022, envolvendo uma jovem da Costa Rica, chamada Valeria Valverde, que, ao cair de bicicleta na cidade de Florença, sofreu um traumatismo craniano, com risco de morte ou de sequelas permanentes. A mãe de Valeria rezou a Carlo Acutis, pedindo a sua intercessão, e peregrinou até ao seu túmulo, em Assis. Valeria recuperou completamente – o traumatismo não deixou sequelas nem rasto – e os médicos não encontraram explicação natural para a cura. 

5Nascido a 6 de abril de 1901, em Turim, e aí falecido, a 4 de julho de 1925, Pier Giorgio Frassati era membro da Ordem Terceira de S. Domingos. Tornou-se popular nas Conferências de S. Vicente de Paulo e na Ação Católica, onde desenvolveu um notável apostolado.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

15 setembro 2025