Por aqui, neste cantinho ocidental, nada acontece de relevante. Tudo segue numa linha pachorrenta, só quebrada por episódios cansados que as televisões nacionais repetem até à exaustão para voltar, dias depois, com as mesmas “novidades” como estas fossem frescas. Já não suporto tanta iteração. Ou agarro-me ao IPad, ou refugio-me no jardim/horta, acompanhando as sementeiras de Inverno a germinar. Televisão, dos telejornais, não! Dos comentários controlados, debitados por gente controladora, também não! Um filme, com barbas e a cheirar a mofo, na Hollywood, ainda é possível! Estou farto destas cenas exasperantes e decidido a fazer greve àquelas vozes monocórdicas que já irritam os meus ouvidos em baixo de forma.
1 - Fogos por todo o lado. Desta vez, foi o Norte e o Centro a serem flagelados impiamente. Todos os canais, a propósitos a despropósito, espalham labaredas e dramas, todo o dia, dando pistas certas aos incendiários que, numa estratégia refinada, vão pintando de negro a paisagem natural. Nada há a fazer para desviar o foco dos acontecimentos. Incêndios, uma calamidade cíclica, sem terapia disruptiva. O remédio, acomodado e com princípio activo fora de prazo, é aceitar o flagelo. O Interior, o célebre e adiado Interior, agora é falado até aos píncaros! É objecto de múltiplas análises, de projectos, de mais ideias de repovoamento. Até de sublime comiseração. Passado o flagelo tudo volta ao normal: o Interior volta ao esquecimento e ao abandono. Sem gente e com aldeias arruinadas. O mato a comer as hortas de antigamente.
2 - Para dar uma nota desrotinada, dizem os mandantes do país que para o ano vai ser diferente. O SIRESP vai funcionar melhor, comprar-se-ão novos meios aéreos e os bombeiros estarão mais aptos e melhor preparados. De imediato, colocam-se milhões para recuperar a destruição do edificado e para se reflorestar. Esta conversa já se arrasta há décadas sem se vislumbrar alterações significativas no combate e na paisagem. Todos os anos, contam-se milhares de hectares queimados, dezenas de casas ou de barracos destruídos e vidas humanas a lamentar. Só não se contabilizam o desespero e a angústia daquelas pessoas exaustas fixadas nas terras do “demo”.
3 - Findo o episódio dos fogos, as televisões, estas na primeira linha, têm que arranjar outro ingrediente “quente” para bombardear o telespectador. O comentariado, sempre bem ornamentado com os comentários altamente especializados, mostram o exímio dos seus saberes. Desta vez e como era expectável e com a bênção da chuvinha que veio amaciar a aspereza do tempo escaldante, tinha que voltar em força o assunto da empresa “SpinumViva” de Montenegro. Para não ser exasperantemente maçador, acrescentaram ao assunto as matrizes escondidas das propriedades do primeiro-ministro. A estratégia é moer, moer, moer para depois tudo fazer, para o abater. Este plano, na verdade, não tem surtido efeito, porque Montenegro tem se mostrado um osso bem duro de roer.
4 - A tragédia da Calçada da Glória veio alterar o rumo noticioso. E à boa maneira lusa e com o processo em averiguações, logo a primeira medida da oposição, em bloco, é pedir a “cabeça” de Carlos Moedas, como este fosse o grande culpado do acidente.
Por que razão os políticos da capital estão a desviar o foco das responsabilidades? Não será a Administração da Carris a primeira entidade a explicar as causas do descarrilamento? Por que razão as responsabilidades terão que cair em cima do Presidente da Câmara? Foi por este ter pedido a demissão de Fernando Medina no caso dos nomes entregues à embaixada da Rússia?
5 - Este país não tem cura. E quando se vislumbram sinais para se construir um outro horizonte, mais límpido e mais promissor, lá vêm os sequiosos pelo poder, que já lá estiveram anos sem fim, com ameaças de intempérie gravosa para enevoar o ambiente ainda fragilizado.
Este país das trivialidades não tem mesmo cura.