Duas localidades algo simbólicas, sobretudo para aqueles que delas se aproximam, vendo-as como sinais de crença, de convicção e até como convivência com outros… fiéis e fidelizados. Fátima consubstancia para os católicos um lugar de manifestação de fé, onde peregrinam e onde tentam exprimir reconhecimento por algo recebido do transcendente. Por seu turno, Atalaia refere-se a um espaço de festa (um tanto ideológica), onde pessoas de determinado partido – simpatizantes, militantes ou devotos – se reúnem anualmente, no primeiro fim-de-semana de setembro… Que relação podem ter estas duas localidades? Que confronto podem subentender? Que mensagem nos podem passar?
1. Fátima e Atalaia apresentam-nos uma espécie de referência ética/moral para cada um dos públicos aderentes: nota-se, em ambos os casos, um clima de fervor quando vemos imagens de um de outro dos espaços, mais vivo será estar lá, onde as coisas – e são muitas e variadas, segundo o respetivo cardápio – deduzindo-se daí que transpiram uma espécie de ‘espiritualidade’ religiosa ou secularizada, conforme a situação.
2. Daquilo que me dado perceber, os militantes que vão à Atalaia seguem um guião de obrigações nas tarefas que lhes são atribuídas e isso faz deles participantes comprometidos em acolher outros. O trabalho a executar será distribuído por um diretório e que deve ser cumprido como missão em favor do coletivo. Tanto quanto me apercebi das explicações dadas por membros participantes, cada tem de fazer essas tarefas, independentemente da sua qualidade social, política ou profissional. Dir-se-á que tem de colaborar na boa vivência de todos que irão à festa, qual peça de um puzzle mais complexo e silencioso.
3. Lá, na Cova da Iria, como se dá a participação dos crentes e como se dão as relações religiosas de uns com os outros? Não serão mais do foro individual – nalguns casos quase se assemelha a individualista, de promessa a pagar – gerindo cada qual a fé sem implicações com os demais? Fátima será – no entendimento mais apertado de alguns – como que um ’ponto de encontro’ de vários com devoções parecidas e que ali se entrecruzam como se antes não se tivessem conhecido e nem se importando com as consequências que advirão no futuro, pois cada qual irá na sua direção autónoma e não tanto numa fé comprometida, como se exigiria de um cristão esclarecido?
4. Se a afluência à Atalaia será devida à música e à gastronomia, o número dos participantes, naquela festa não condiz com os resultados eleitorais do partido que está na origem daquele acontecimento. Ora, os índices de participação em Fátima parece que estão também em plano escorregadio, pelo menos naquilo que aos emigrantes diz respeito. Com efeito, as enchentes das peregrinações são coisas de um passado algo distante, embora se perceba que este ‘lugar de fé’ continue a atrair muitos ‘católicos pouco praticantes’ e em itinerância. Mesmo que as coisas não se meçam pela quantidade, será sempre de questionar a qualidade, pois será esta que há de impor as iniciativas…
5. Num tempo em que se vaticinou o fim das ideologias – e quase por arrastamento também das religiões – torna-se fundamental não embarcar nesse mito, antes pelo contrário, temos de aprofundar as razões de levaram a serem preteridas formas de pensar por arranjos de acomodação. Precisamos de saber com quem estamos e de podermos dialogar sobre ideias e não de meramente engendrar desculpas para combater pessoas. Mesmo que algumas ideologias possam apresentar ideias menos corretas sobre a pessoa, a sociedade e outros temas de cidadania, será bem mais importante do que nos deixarmos manipular por quem pensa como vive e não vive como pensa.