O ruído, a pressa e a agitação – que povoam as festas de verão – incorporam uma obstinada ilusão de felicidade.
São instantes sucessivos que até deixam entrever sorrisos. Só que que também expelem enxurradas de infortúnio que a alma mantém reprimidas.
Dá para ver que nem nas festas de verão há paz e serenidade no coração.
Há uma padronização nas ofertas de diversão que não poucos pretendem trasladar para o próprio universo espiritual.
As celebrações chegam a assemelhar-se a um aditamento para que o programa seja mais alongado. As procissões – que nasceram para ser públicas manifestações de fé – vão-se transfigurando em desfiles, com uma assistência distendida em modo «aplaudómetro».
Sendo promovidas para fomentar a participação, não deixa de intrigar que os espetadores superem o número dos participantes. Das mãos pendem mais os telemóveis do que o terço. E os comentários são mais audíveis que as preces.
Com algumas – poucas – variáveis, o cenário repete-se de terra para terra e alarga-se de ano para ano.
As festas abundam pelo país fora. Mas será que a alegria no interior das pessoas mora?
Por muito que digam o contrário, a felicidade não é ruidosa. É bela, transparente e, quase sempre silenciosa.
Há no silêncio – intui acertadamente Jean-Michel – «uma beleza que surpreende, uma certa tonalidade que se saboreia com delicadeza».
Porquê, então, tanta repulsa pelo silêncio? A sociedade insta a submissão ao ruído, impedindo-nos de ouvir a palavra interior que acalma e alivia.
Nas festas, como na vida, fala-se muito e grita-se bastante. Mas entendemo-nos? Caso para citar Alain Corbin: «Cala-te para que eu te entenda».
Às vezes, é como alertava Maeterlinck: «A vida verdadeira, a única que deixa algum rasto, é feita de silêncio».
Não iria tão longe. Permitir-me-ia matizar dizendo que a vida em plenitude é feita a partir do silêncio.
Urge reaprender a capacidade geradora do silêncio. Efetivamente, o silêncio gera, o silêncio cria, o silêncio educa e o silêncio também felicita.
A Igreja pode encontrar aqui um lugar determinante. Em si mesmo, o culto é uma escola de silêncio e de resguardo de toda a agitação.
Nas procissões – reconhece Alain Corbin –, «quando as vozes e os instrumentos emudecem, deverá erguer-se um silêncio tão majestoso como o dos grandes mares em dia de calma».
Uma das funções da corte de Bizâncio era a do Silenciário. Não seria de pensar instituí-lo nas nossas comunidades?
Quem recusa o silêncio recusa-se a escutar e a ver o outro, impede-o de deixar a sua marca. Não será isso o que estamos a fazer ao próprio Deus?
Não escorracemos o silêncio da festa nem da vida. O silêncio fornece alívio e um improvável (mas delicioso) repouso. Duvidam? Experimentem. E não adiemos o silêncio para depois da morte!