Sendo os acontecimentos cada vez mais agitados, seria bom que – ao menos – as memórias se tornassem serenas.
Em alguns relógios de sol, figurava uma sugestiva inscrição em latim: «Horas non numero nisi serenas». A tradução poderá ser: «Não conto senão as horas serenas».
É, de facto, na serenidade que – como recomenda Amado Nervo – devemos rememorar todas as horas, incluindo «as horas de dor».
Não deixarão de ser dolorosas essas horas. Mas a serenidade da sua recordação como que nos apazigua perante elas.
É de evitar a reativação da memória para «as horas de ira, de rancor, de turbulência que sacodem o nosso espírito e que nos voltam a ferir só com a sua recordação».
Ao invés, torna-se curativo «fazer um inventário dos minutos belos e agradáveis, dos momentos sossegados da vida».
Mas, para isso, é urgente admitir que carecemos de uma cura para a impaciência, para a agitação, para a intemperança verbal, para a ansiedade.
Nesta noite do mundo, parece que os sorrisos se apagaram. A depressão massacra e a angústia tortura desde a mais remota infância. Descobrimo-nos como uns fracassados vitalícios, vítimas de tudo e alegadamente injustiçados por todos.
Diante desta profusão de padecimentos, o acompanhamento clínico é vital, mas a terapia espiritual pode despontar como uma mais-valia surpreendente, com assombrosos efeitos medicinais.
De facto, nas incessantes tempestades da vida, Deus está presente (cf. Jb 38, 1; Mt 8, 18). A Sua presença é a única acalmia e, consequentemente, a melhor terapia.
Tendo em conta que, «para Deus, nada é impossível» (Lc 1, 37), então «tudo é possível para quem [n’Ele] crê» (Mc 9, 23).
É o caso da cura mais decisiva: reconhecer – e enaltecer – a prioridade da vontade de Deus sobre a nossa (cf. Mt 6, 10; Lc 22, 42), tanto mais que «não nos pertencemos a nós mesmos» (1Cor 6, 19).
Não esqueçamos que, como lembrava Hölderlin, «com esperança, paciência e silêncio, é possível, derrotar o destino».
E o destino – vocábulo potencialmente equívoco – envolve não só a doença que irrompe ou a calamidade que devasta. Abrange igualmente a desesperança que nos desmotiva e o desalento que nos deixa prostrados.
Porque só lembrar o que mais gostaríamos de esquecer?
Que o nosso último pensamento antes de adormecer seja de gratidão. E se a recordação de alguma impaciência ou de cólera nos atormentar, «procuremos serenamente afastá-la de vez».
A serenidade das horas difíceis é a mais necessária e a mais curativa. A adversidade começa a ser superada quando é assumida.
E não desatendamos ao aviso de William Cowper: «Até o dia mais cinzento, mesmo que dure até amanhã, pertencerá rapidamente ao passado».
É na fragilidade humana que mais se manifesta a omnipotência divina (cf. 2Cor 12, 10).
Não deixe de acender um sorriso, mesmo que uma torrente de lágrimas humedeça o seu rosto.