Fez ontem, dia 29 de junho, 125 anos que nasceu Antoine de Saint-Exupéry, aviador, jornalista, escritor e herói de guerra, figura fascinante da literatura e da aviação, cuja vida se dividiu entre o céu e a palavra, a ação e a contemplação.
Nascido a 29 de junho de 1900, em Lyon (França), no seio de uma família aristocrática empobrecida, era o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe. Fez os seus estudos no colégio jesuíta de Notre-Dame, em Le Mans (1909 a 1914) e no colégio de Saint-Jean de Fribourg, na Suiça (1915 a 1917).
Em abril de 1921, iniciou o serviço militar, no Regimento de Aviação de Estrasburgo. Enviado para Rabat (Marrocos), em 17 de junho desse mesmo ano, obteve o brevê de piloto civil e, em 1922, o de piloto militar. Em 1926, foi admitido na Aéropostale e deu início à carreira de piloto de linha, voando entre Tolouse, Casablanca e Dacar. Foi nesse ano que publicou o seu primeiro livro, O Aviador.
Entretanto, ajudou a implantar rotas de correio aéreo na África, na América do Sul e no Atlântico Sul, além de ter sido pioneiro nos voos Paris-Saigon e Nova Iorque-Terra do Fogo. Foi por essa altura que publicou o seu segundo livro, Correio do Sul (1929). Em Buenos Aires, conheceu a mulher com quem esteve casado entre 19311 e 1944, a escritora Consuelo de Saint-Exupéry.
Na década de 1930, trabalhou como piloto de provas para a Air France e como repórter do jornal Paris Soir. Em 1931, publicou Voo Noturno2, romance em que exalta os primeiros pilotos comerciais que enfrentavam a morte no cumprimento do seu dever. Mais tarde, em 1939, publicou Terra dos Homens, em que mistura memórias pessoais e filosofia humanista, refletindo sobre a fraternidade, a coragem e a condição humana3. As frases mais famosas e citadas deste livro são: “amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção”; “a perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado”; “o verdadeiro homem mede a sua força quando se defronta com o obstáculo”.
Quando a Alemanha invadiu a França, Saint-Exupéry fugiu para os Estados Unidos e foi nesse período que escreveu Piloto de Guerra (1942) e Carta a um Refém (1943).
Se até aqui os seus livros testemunhavam uma paixão profissional pela aviação, daqui em diante, incentivado por editores americanos, que se aperceberam da sua habilidade como desenhador, começou a fazer uma obra para crianças. E assim nasce o conto infantil Le Petit Prince (O pequeno Príncipe/O Principezinho), uma fábula filosófica sobre o amor, a amizade, a perda e a infância. Publicado em 1943, é o livro francês mais traduzido do mundo, com mais de trezentas versões. Das suas frases mais famosas, destacamos: “tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas”; “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”; “aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”; “os homens compram tudo pronto nas lojas... Mas como não há lojas de amigos, os homens não têm amigos”; “num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo”.
Além dos livros que publicou, também escreveu artigos para várias revistas e jornais de França e sobre assuntos diversos, tais como a guerra civil espanhola e a ocupação alemã da França.
Após cerca de vinte e cinco meses nos Estados Unidos, Saint-Exupéry voltou a França para voar com as Forças Francesas Livres e lutar com os Aliados num esquadrão do Mediterrâneo. A sua última tarefa foi recolher informação sobre os movimentos das tropas alemãs em torno do Vale do Ródano, antes da invasão aliada do sul da França. Em 31 de julho de 1944, partiu de uma base aérea na Córsega e não voltou. Uma mulher relatou ter visto um acidente de avião por volta do meio-dia de 1 de agosto, perto da baía de Carqueiranne, Toulon. Um corpo não identificável, usando cores francesas, foi encontrado vários dias depois a leste do arquipélago de Frioul, ao sul de Marselha, e enterrado em Carqueiranne.
Em 1998, um pescador de Marselha, Jean Claude Bianco, pescou uma pulseira prateada, com a inscrição do nome de Saint-Axupéry e de sua esposa. Foi então que Luc Vanrell iniciou uma investigação que levou à descoberta de destroços do P-38, próximo de Marselha, confirmando-se mais tarde que se tratava da aeronave de Saint-Exupéry. Fragmentos desse avião estão expostos no Museu do Ar e do Espaço de Le Bourget, perto de Paris, qual memorial silencioso e enigmático dum dos escritores mais lidos e amados do século XX. O aviador e escritor morreu, mas as suas obras literárias imortalizaram-no e fizeram dele uma verdadeira fonte de inspiração.
1O casamento realizou-se em Agay (França), no dia 23 de abril de 1931.
2Vol de Nuit é um romance que versa os perigos e a solidão dos pilotos e foi premiado com o Prix Femina, prémio literário francês criado em 1904 por 22 redatoras da já extinta revista Vie hereuse. O prémio ainda se mantém e o júri é composto exclusivamente por mulheres, embora o prémio possa ser concedido tanto a homens quanto a mulheres.
3Terre des Hommes foi reconhecido com o Grand Prix de l’Académie Française, em 1939.