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O luto invisível: romper o silêncio sobre o aborto espontâneo

Durante os primeiros três meses de gravidez, muitas mulheres seguem um ritual social quase tácito: o de manter o segredo. Este silêncio não é casual: dizem que é prudente, que é melhor esperar para “ver se corre tudo bem” antes de partilhar a notícia. Esta norma informal, passada de geração em geração, pretende proteger contra as expectativas frustradas, os julgamentos ou, simplesmente, o medo do desconhecido. Mas, sem que nos darmos conta, esse silêncio também aprisiona porque quando algo não corre bem — e isso acontece com muito mais frequência do que se imagina — o silêncio torna-se um fardo. Se ninguém sabia da gravidez, ninguém saberá da perda. E se ninguém sabe da perda, quem reconhecerá o luto?


 

Na verdade, cerca de uma em cada quatro gravidezes termina em perda, segundo a Organização Mundial da Saúde. No entanto, esta realidade permanece escondida, pouco falada e envolta em tabu. E, quando a perda ocorre, muitas vezes ela é invisível para a sociedade porque ninguém sabia da gravidez. Esta invisibilidade transforma o luto numa dor silenciosa, íntima e solitária. A mulher que perdeu uma gravidez pode voltar às suas rotinas, ao trabalho, às obrigações familiares, e fingir que nada aconteceu. Mas dentro dela há um vazio profundo, uma ausência que não se vê, mas que pesa no corpo e na alma. Este é um luto que não tem rituais, que não recebe flores, que não é legitimado socialmente.


 

Quando a mulher tenta partilhar o que sentiu, é comum ouvir frases que, em vez de acolher, acabam por desvalorizar a sua dor. Comentários como “Não era um bebé ainda”, “Era só um amontoado de células”, ou “És jovem, vais tentar outra vez”, negam a dimensão afetiva e simbólica desta perda. São expressões que, embora frequentes, são profundamente desumanizadoras. Elas retiram à mulher o direito fundamental de viver o seu luto e sentem que a sua dor não é legítima porque, segundo a lógica social, “não deveria doer tanto”.


 

No entanto, perder uma gravidez não é perder “algo pequeno”. É perder um sonho, uma possibilidade de vida que começava a ser sonhada, planeada e sentida. É perder uma parte de si que já se transformava — uma identidade que se iniciava na experiência da maternidade. Mesmo quando a gravidez é precoce, o vínculo emocional já se estabelece, seja consciente ou inconsciente. Por isso, esse luto merece respeito, cuidado e reconhecimento.


 

Negar ou esconder este luto tem consequências profundas. Sem a validação da dor, a mulher pode sentir-se isolada, envergonhada ou incompreendida. A ausência de rituais ou espaços de escuta dificulta o processo de elaboração do luto, podendo levar a dores prolongadas, tristeza profunda e até a problemas de saúde mental. Por isso, é urgente romper o silêncio e o tabu em torno do aborto espontâneo. Precisamos de criar espaços seguros e acolhedores para que as mulheres possam expressar a sua dor sem medo de serem julgadas ou minimizadas. Precisamos de mais empatia, mais escuta e mais humanidade.


 

Dizer “sinto muito pela sua perda” não é um gesto pequeno, é um reconhecimento da dor do outro e um convite para que essa dor seja acolhida. Validar o luto é permitir que a mulher se reconecte consigo mesma, que encontre sentido na sua história e possa, gradualmente, transformar a dor em memória e força.


 

O aborto espontâneo é um luto real e profundo que merece ser falado, sentido e honrado. Que cada mulher que viveu esta perda saiba que a sua dor importa, que o seu sofrimento tem um lugar na sociedade e que merece todo o respeito.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

25 junho 2025