Confesso que o mito elencado no título deste texto é dos que só passei a conhecer após a emergente premência dada, pelo Papa Francisco, à temática de “sinodalidade”. Uma temática que, diga-se com prudência e verdade, ainda é de tal modo ambígua que o dito Bispo de Roma pediu – em novembro de 2024 (e já depois do fim das reuniões na aula sinodal romana sobre a “sinodalidade”) – que a mesma fosse estudada teologicamente.
Na realidade, na ausência de sólidas evidências teológicas e históricas sobre o que rapidamente se afirmou ser a “sinodalidade” de Francisco, passou-se a procurar fiapos de evidências e a elaborar conjeturas para, assim, se sustentar a mesma – no caso presente, afirmando-se que foi no séc. II que surgiu um suspender das práticas sinodais. Estranhíssimo, pois, que católicos criem mitos sobre o Cristianismo.
Vejamos que, em At. 15, há referências a uma reunião entre os apóstolos para se saber como proceder com aquelas pessoas que, provindas de fora do judaísmo, iam aderindo ao Cristianismo. Em concreto: deviam elas submeter-se aos preceitos judaicos fundamentais antes de poderem ser cristãs? Seja como for, é muito difícil denominar aquele evento de “sínodo” ou “concílio” (que, note-se, não são palavras bem sinónimas). A palavra que usei mais acima parece ser a mais adequada: “reunião” ou “conferência”.
Já na “Carta aos Gálatas”, escrita ainda dentro do cenário teológico que motivou a sobredita reunião e anos antes desta, vemos que, se houve tensões entre São Pedro e São Paulo, não se realizou nenhuma reunião geral. Mais: se São Paulo foi falar a São Pedro, estoutro, por seu lado e segundo sabemos, não foi falar a ninguém (algo que, aliás, é apresentado como um dos sinais do papel petrino na Igreja, que desaguarão na cognição da identidade e missão do Papa).
Afora isto, e a possível reunião dos líderes cristãos da comunidade de Roma que elaboraram a carta dessa comunidade à de Corinto em fins do primeiro século, a Igreja primitiva, no séc. I e no séc. II, não se inclinou muito à realização de reuniões episcopais (que saibamos). Mas “muito” não é “nada”. Efetivamente, temos evidências que, a meados do segundo século e entre presbíteros e mestres de Roma, terá havido uma grande consulta a respeito da inspiração das profecias contidas numa obra denominada “Pastor” (escrita por Hermas).
Mas podemos ir muito mais longe: quando, por volta de 170, surge Montano da Frígia a veicular as suas teses, houve um sínodo (que não se sabe se foi apenas entre autoridades eclesiásticas da Frígia ou se contou ainda com outras vindas de lugares mais alargados) para se discutir o que pensar e fazer ante essa situação. Algo de semelhante ocorreu a finais do século segundo quando Noeto de Esmirna, e após ter sido advertido sobre a sua interpretação errada sobre a Trindade, persistiu em veicular com contumácia as suas asserções, acabando por ser deposto do seu ofício clerical e afastado da “Grande Igreja”.
Sumariando: embora não com a identidade, procedimentos e finalidades da atual “sinodalidade”, é errado (ou falso) dizer que no século segundo foi deixada a prática sinodal apostólica. Após um hiato entre talvez o ano 90 e o ano 160, aquela foi retomada com vigor, passando mesmo a incluir peritos leigos e, assim, a lançar sementes para o que será o futuro.