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Uma visão liberal para a cultura bracarense

Cultura como motor de desenvolvimento

A política cultural de um município reflete o valor que atribui ao património, à criatividade e ao pensamento crítico dos seus cidadãos. No plano social, a cultura é motor de coesão, diálogo e identidade coletiva. Em diversas formas — do teatro às tradições populares, da música à literatura — fortalece a ligação entre pessoas e comunidades. No plano económico, movimenta um amplo ecossistema: criadores, produtores, técnicos, espaços culturais, promotores, serviços e comércio local. Apoiar a cultura é transformar criatividade em trabalho, rendimento e dinamismo económico. Cidades com políticas culturais sólidas tornam-se polos atrativos para residentes, visitantes e investidores.

Apesar da visão liberal tender a reduzir a intervenção estatal, a cultura é um campo onde o Estado tem um papel indispensável. Sendo um bem coletivo e imaterial, não pode ser deixado exclusivamente às lógicas do mercado. A ação pública é necessária para garantir acesso democrático, diversidade de expressão e sustentabilidade da criação. Contudo, essa intervenção deve ser facilitadora, não impositiva: compete ao Estado criar condições para que a liberdade artística floresça – com apoios, formação, espaços e incentivos – sem impor conteúdos. O objetivo deve ser estimular a procura e a participação cultural, respeitando sempre a autonomia criativa.

Cultura em Braga nos dias de hoje
Em 2025, Braga acolhe a Capital Portuguesa da Cultura – uma responsabilidade que é também uma oportunidade singular. Para além da programação, deve servir de ponto de viragem para uma estratégia cultural mais estruturada e inclusiva. É o momento certo para investir em infraestruturas, apoiar criadores e repensar o papel da cultura no desenvolvimento urbano. Aproveitar este projeto de forma profunda – e não apenas mediática – permitirá estabelecer relações duradouras com artistas, instituições e comunidades, dentro e fora do país.

Apesar da atividade cultural reconhecida, a autarquia tem sido criticada pelo foco em grandes eventos populares como a Noite Branca ou o São João. Embora mobilizadores, estes consomem recursos consideráveis e favorecem artistas com pouca ligação local. Esta visão, que apresenta entretenimento como cultura, resulta numa política centralizada, onde o município define o que o “povo quer”, sem valorizar a criação local nem promover o acesso plural à arte.

Não defendo que se eliminem festas, mas que se equilibre a celebração com estratégias culturais de longo prazo.

Potencial por explorar
Como alternativa à lógica dirigista, propõe-se um modelo mais participativo e inclusivo. Um “cheque cultura”, atribuído anualmente aos cidadãos, permitiria a cada um escolher livremente que eventos culturais apoiar – teatro, cinema, exposições, festivais ou museus. Esta medida democratiza o acesso, valoriza a diversidade e devolve aos cidadãos o poder de decisão sobre a sua experiência cultural.

Simultaneamente, o município poderia criar estaleiros artísticos – espaços para criação, residência e apresentação – que ofereçam condições concretas para o trabalho dos artistas locais. Distribuídos por diferentes zonas da cidade, estes estaleiros promoveriam também a descentralização da oferta e o reforço dos laços comunitários.

Uma visão mais ampla deve incluir o envolvimento de entidades privadas locais, não apenas como patrocinadores, mas como parceiros ativos em programas sustentáveis. A criação de incentivos a beneméritos pode fomentar o diálogo entre privados e projetos artísticos, beneficiando ambos: quem investe, ao contribuir para uma cidade culturalmente mais forte; e quem cria, com maior visibilidade e novas formas de financiamento.

Assente na liberdade, na descentralização e no apoio à criação, esta estratégia permitiria revitalizar o ecossistema cultural bracarense e posicionar Braga como referência em políticas culturais democráticas, inovadoras e sustentáveis.

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Bernardo Gonçalves

4 maio 2025