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Ser Mãe, Ter Mãe, Perder a Mãe: um dia com muitos sentidos

 


 

 


 

O Dia da Mãe aproxima-se e, com ele, chegam flores, presentes, palavras bonitas. É uma data que celebra o amor materno e nos convida a agradecer. Para muitos, é um dia de festa. Mas há também quem o viva em silêncio, com um nó na garganta, porque esta é uma data que pode abrir feridas, despertar memórias e revelar ausências.

Ser mãe, ter mãe, perder a mãe — cada uma destas experiências carrega uma carga emocional profunda. Há quem celebre com alegria a maternidade ou a presença da mãe, mas também quem encare este dia com tristeza e saudade.

Vivemos numa cultura que idealiza a maternidade. A “boa mãe” é frequentemente retratada como figura perfeita, sempre amorosa. Mas na realidade, existem mães que não conseguiram amar; filhos que não se sentiram amados; mães que perderam os filhos que geraram; mulheres que desejaram ser mães e não puderam e mães que partiram cedo demais, deixando um vazio impossível de preencher.

Há também mães que vivem um luto em vida: o dos filhos que se afastaram, que deixaram de telefonar ou visitar. Às vezes, esse afastamento é súbito; outras, instala-se aos poucos. Nem sempre resulta de desamor – muitas vezes reflete relações difíceis, mágoas não ditas. Para estas mães, o Dia da Mãe pode ser especialmente duro. Algumas continuam a amar em silêncio, a guardar memórias. Outras aprendem a honrar o amor que deram, mesmo sem retorno. Encontram na espiritualidade, na arte ou na terapia formas de cuidar da ferida e reconstruir sentido. Falar destas mães é um ato de reconhecimento. O luto pelo vínculo perdido é tão legítimo quanto qualquer outro. Num dia como este, o silêncio em que vivem também merece ser escutado.

Enquanto terapeuta do luto, acompanho histórias de amor interrompido, vínculos despedaçados, gestos que ficaram por fazer. No Dia da Mãe, muitas destas histórias emergem com força: mulheres que perderam bebés em gestações interrompidas, filhos adultos que ainda choram a ausência das suas mães, pessoas que vivem lutos invisíveis, pouco reconhecidos, mas profundamente sentidos.

A sociedade nem sempre dá espaço para estas dores. Espera-se que os dias “comemorativos” sejam vividos com alegria. Mas há comemorações que custam. Datas que escancaram ausências. E é precisamente por isso que precisamos falar disto: para legitimar a dor, permitir o luto, para que ninguém se sinta sozinho por não conseguir “celebrar como se deve”.

Se temos a sorte de ter a nossa mãe por perto, não adiemos gestos de carinho. Honrar as mães em vida é uma forma poderosa de amor. Às vezes bastam palavras simples, um telefonema, uma visita inesperada, um abraço demorado. Porque o tempo passa, e o que hoje parece garantido pode, num instante, tornar-se ausência. Valorizar quem cuidou de nós e nos amou, é também um gesto de gratidão.

Neste Dia da Mãe, deixo um convite: que olhemos para os outros com mais empatia. Que saibamos reconhecer que o amor também vive na ausência, que o vínculo pode persistir mesmo depois da morte, e que o cuidado se manifesta, muitas vezes, na forma como acolhemos o outro — e a nós mesmos.

Celebrar o Dia da Mãe pode ser, acima de tudo, uma oportunidade de escuta, de presença e de respeito. Talvez o gesto mais bonito deste dia seja aquele que não se vê — a vela acesa, a fotografia segurada com carinho, a lágrima que cai em silêncio. Estes também são rituais de amor. Que cada um possa encontrar, neste dia, o gesto certo para honrar a sua história — com verdade, compaixão e a certeza de que todos os sentimentos merecem lugar.


 

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

4 maio 2025