Não devia ser assim, mas o acesso à verdade tornou-se hoje um dos maiores desafios do nosso tempo. A proliferação de desinformação, ao serviço de interesses particulares, institucionais ou até governamentais, é uma realidade comum e densa, com impacto crescente nas nossas sociedades.
Exemplos recentes, como o Brexit, a pandemia da COVID-19 ou várias eleições no mundo ocidental, demonstraram de forma clara os efeitos devastadores da manipulação da informação. Se outrora contávamos com meios de comunicação tradicionais, como a rádio, televisão ou imprensa escrita, sujeitos a normas e responsabilidades editoriais, hoje vivemos num cenário em que as redes sociais, embora não sejam responsáveis pelo conteúdo que veiculam, permitem a circulação massiva e instantânea de qualquer tipo de informação, sem controlo.
E fazem-no com uma eficácia impressionante, personalizando as mensagens quase ao nível individual, muitas vezes escudadas na ideia, por vezes deturpada, de liberdade de expressão.
É importante sublinhar que a liberdade de expressão não é o problema. O verdadeiro problema está no abuso dessa liberdade sob os algoritmos usados e na forma como é explorada para alimentar agendas ilegítimas, promover o ódio, a violência, a polarização, ou simplesmente gerar lucro. E porquê? Porque emoções negativas captam mais atenção, e atenção tornou-se a nova moeda do mundo digital.
Por outro lado, ao explorar os nossos perfis, gostos e preferências, estas plataformas servem-nos conteúdos com os quais mais nos identificamos. Mas esse conforto tem um custo elevado, aumentando o empobrecimento do nosso espectro informativo. Perdemos diversidade de fontes, contexto e contraditório. E com isso, perdemos pensamento crítico.
Como acontece com qualquer avanço tecnológico, o impacto da inovação depende do uso que lhe damos. A inteligência artificial não é exceção. Felizmente, começa a afirmar-se como uma ferramenta promissora também no combate à desinformação. Vários projetos demonstram como está a ser usada para proteger a integridade da informação, sobretudo na Europa.
Europa a liderar iniciativas
A NATO tem adotado uma abordagem integrada para combater ameaças informativas. A sua capacidade de Avaliação do Ambiente de Informação (IEA) combina especialistas, processos e tecnologia para analisar e responder a campanhas de desinformação. Além disso, mantém uma vigilância regular sobre os meios de comunicação, identificando riscos e ameaças de forma contínua.
Já a União Europeia tem financiado vários projetos inovadores com base em IA:
GoodNews recorre a aprendizagem profunda para identificar notícias falsas, analisando padrões de difusão nas redes sociais, em vez de se focar apenas no conteúdo.
FARE estuda a disseminação de notícias falsas, analisando os processos de decisão e os erros associados à aceitação de desinformação.
COVINFORM foca-se na prevenção de desinformação relacionada com a pandemia, avaliando também o impacto psicológico e social nos diferentes grupos da população.
DeFaktS, na Alemanha, treina sistemas de IA para detetar e sinalizar conteúdos duvidosos em redes sociais e plataformas de mensagens.
Estes exemplos mostram que, embora a tecnologia possa ser usada como arma, também é uma ferramenta fundamental para a defesa da verdade.
Nós somos a primeira linha de defesa
Apesar dos avanços tecnológicos, a primeira linha de defesa contra a desinformação continua a ser cada um de nós. Em sociedades democráticas, as decisões pertencem a todos. Mas para que todos possam decidir com liberdade, é essencial que estejam bem informados.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de cultivar um ceticismo saudável. Se antes bastava “ver para crer”, hoje nem por isso! A manipulação de imagens, vídeos e textos permite criar realidades alternativas com um grau de realismo impressionante. Por isso, a responsabilidade de filtrar, questionar e validar a informação está nas nossas mãos.
A melhor forma de nos protegermos é através do conhecimento. Isso implica:
Escolher fontes credíveis e reconhecidas;
Valorizar o jornalismo sério e profissional;
Questionar conteúdos excessivamente sensacionalistas;
Reforçar o pensamento crítico e a literacia digital.
Mantenhamo-nos do lado certo da história. A tecnologia deve servir a humanidade, e não o contrário. Cabe-nos exigir responsabilidade de quem a utiliza com fins manipuladores e inaceitáveis. A inteligência artificial pode e deve ser uma aliada na construção de uma sociedade mais informada, justa e resiliente.