Certamente que o regime democrático, pese embora algumas dificuldades que levanta aos cidadãos, é aquele que melhor se conforma com uma característica fundamental do homem: ser livre.
As ditaduras sempre conduzem a situações impróprias de quem tem, por natureza, a possibilidade de mostrar as suas opiniões, que podem ser contrárias às que os detentores do poder determinam. Viver num sistema destes, salvo alguma e breve excepção que o exija em certo momento da vida duma sociedade, é como estar numa prisão sem ter culpa. A lei é determinada pelos carcereiros e não é permitido protestar ou manifestar o seu desacordo.
No entanto, a democracia pode transformar-se num sistema em que o recurso constante a eleições cansa o cidadão e leva-o a tomar uma atitude de desinteresse pelas causas públicas. E uma manifestação é o número de eleitores que não comparece nas urnas de voto, preferindo, por vezes, não sacrificar o dia feriado ou dominical em que o acto eleitoral se realiza, para descansar ou dar um bom passeio familiar. O abstencionismo é sempre lamentável se revela alheamento ou desinteresse por parte de quem deve votar.
Alguém comentava que o número de faltas de eleitores nas urnas devia ser estudado pelos políticos profissionais. Ele assinala uma derrota democrática, sobretudo se o seu número é elevado, porque indica que muitos cidadãos, falando em linguagem popular, “estão-se nas tintas” para exercer um direito que a constituição lhes concede, preferindo, muitas vezes, por comodismo e falta de sensibilidade democrática, aproveitar o tempo que o acto eleitoral lhe concede, para se dedicar a actividades que demonstram uma cidadania preguiçosa.
O nosso país, salvo em algumas excepções, tem recorrido com relativa assiduidade a eleições antecipadas. Confesso que não sei o seu número. Mas ele é a manifestação de uma instabilidade política, que tem de recorrer a este meio com frequência algo cansativa. O cidadão, por isso, fatiga-se por ter tantas vezes de ir às urnas. E, a partir duma certa altura, encolhe os ombros e desiste de comparecer. Como observava alguém: “Votar para quê? Daqui a algum tempo terei de o fazer outra vez... Estou farto!”
Seja como for, quem viveu longos anos num sistema ditatorial – como podem comprovar os cidadãos lusitanos mais idosos, já que o “25 de Abril” ocorreu há já várias décadas – tem consciência clara de que as eleições, desde então, são actos relevantes em que o cidadão sabe que vai haver resultados credíveis, que dependem em boa parte da sua ida às urnas para depositar o seu voto. Antes, já se sabia previamente que quem detinha o poder iria ter um número de votos superior a algum opositor – se é que o havia –, já que a probidade dos resultados era uma fábula. O vencedor estava assim sempre predeterminado: quem mandava politicamente e não outro concorrente, que, além disso, poderia ser alvo de constrangimentos e de limitações da sua liberdade cívica.
Em suma: agora vale a pena votar, apesar de custar algum sacrifício.