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Durante o Século Segundo, a data da Páscoa só foi a romana

A temática que vos trago hoje até vós é daquelas que julgo incompreensível, quer pelo facto de ser afirmada, quer pelas próprias razões com que é ser sustentada – normalmente para acusar o Cristianismo de paganismo ou vincar a imutabilidade do praticado em Roma.

Note-se que este último aspeto da imutabilidade também é sustentado por grupos de algumas franjas católicas (cuja intencionalidade não estou apto para julgar). No tempo em que não era tão acessível aceder “às fontes históricas”, este mito até podia passar incólume. Porém, hoje, as coisas são distintas e manter-se apegado “ao que era (erradamente) dito” só prejudica a credibilidade da Igreja. Pessoas inseguras, esteios férreos (mas às vezes equivocados).

Conhecendo-se a história deste período, mormente no que concerte à data em que foi celebrada a Páscoa em Roma, há dois episódios que envolvendo bispos romanos são elucidativos de quão afastado da verdade se encontra este mito: um, com o bispo Aniceto (da atual Síria); outro com o bispo Vítor (da atual Líbia). E ambos andam ao redor de ter havido grupos cristãos que consideraram a mudança na celebração anual da Páscoa em Roma (e pretensão que assim fosse comemorada universalmente) um problema mais ou menos grave.

Na verdade, em Roma era costume celebrar-se, esse mais importante dia para os cristãos, na ocasião do calendário lunissolar judaico em que Jesus faleceu (dia 14 do mês de Nisã), independentemente de este dia coincidir, ou não, com um Domingo. Só na década de 140 é que, reconhecendo-se que os cristãos se deveriam afastar do calendário judaico, se passou a fazer coincidir a Páscoa num Domingo; em concreto: no primeiro Domingo após o dia 14 de Nisã (segundo uma prática importada para Roma desde Alexandria do Egipto).

Devido a esta mudança em Roma, e no bispado de Aniceto, Policarpo de Esmirna deslocou-se àquela cidade, nos começos da segunda metade do séc. II, para mostrar que se devia continuar a celebrar a Páscoa segundo a prática mais antiga dos cristãos, tal como era feito na Ásia Menor e de onde Policarpo era natural. Nessa ocasião, chegou-se a um acordo na aceitação das diferenças e, portanto, na não imposição, por Roma, de uma data universal.

Acontece que acerca de um assunto tão relevante e constituidor de visibilidade da unidade, a mencionada diferença, entre as datas da celebração da Páscoa, era algo que dificilmente podia continuar numa Igreja una. Assim, por volta do ano de 190 e depois da celebração de um sínodo local, o bispo Vítor de Roma (envolto em graves celeumas, em especial as teológicas acerca da Santíssima Trindade) volta a tentar unificar a data da Páscoa segundo a (nova… pois só tinha cerca de 50 anos) prática romana. Curiosamente, ele justifica a sua ação (num momento em que não se faziam registos acerca destes temas) dizendo que tal data era a que se havia mantido imutável desde o tempo de Pedro e Paulo.

Para impor essa decisão, o bispo Vítor excomungou (ou, pelo menos, ameaçou fazê-lo) quem não aceitasse essa determinação. Não se sabe se esta sua ação se dirigia apenas a quem vivia em Roma ou a todas as comunidades cristãs. A segunda hipótese é a mais viável, pois quer o líder das Igrejas no Oriente (Polícrates), quer o bispo Ireneu de Lyon (na atual França) dirigiram-se a Vítor em termos que o fizeram demover de tal (intento) de excomunhão.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

26 março 2025