É verdade, o Diabo conhece a Bíblia.
Porventura, até a conhece melhor que muitos cristãos, que padecem atavicamente de uma inveterada iliteracia bíblica.
O Príncipe das Trevas comete inclusive o desaforo de confrontar o Filho de Deus com excertos da Escritura.
É quando tenta convencê-Lo a atirar-Se do alto do Templo: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo» (Mt 4, 6; Lc 4, 9).
Para O persuadir, garante: «Deus dará instruções aos Seus anjos a Teu respeito, para que Te guardem; eles Te segurarão nas mãos para que não tropeces nalguma pedra».
Trata-se de um extrato do Salmo 91, versículos 11 e 12.
Acontece que Jesus – «o exegeta de Deus» (William Johnsson) e «o teólogo do Pai» (Thomas Merton) – percebe o ardil e refuta o Tentador igualmente com uma passagem da Escritura: «Não tentarás o Senhor, teu Deus» (Mt 4, 7; Lc 4, 12).
Trata-se de um traslado de uma das muitas exortações contidas no Livro do Deuteronómio (cf. 6, 16). Aliás, é sempre com o recurso a este escrito do Antigo Testamento que Jesus contradita o Tentador.
Quando este Lhe propõe que transforme as pedras em pão (cf. Mt 4, 3; Lc 4, 3), o Senhor não hesita: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4; cf. Lc 4, 4).
É uma citação literal de Deuteronómio 8, 3.
E no momento em que O seduz com a entrega de todos os reinos do mundo em troca de Jesus Se prostrar para o adorar, recebe uma resposta contundente: «Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele prestarás culto» (Lc 4, 8; cf. Mt 4, 10).
É uma reprodução fiel de Deuteronómio 6, 13.
Foi seguramente neste triplo procedimento de Jesus que o célebre Evágrio do Ponto se inspirou para propor o seu famoso método «antirrético» (que significa «próprio para rebater»).
Com tal método, Evágrio defendia o poder da Palavra de Deus para superar todo o pensamento negativo e todo o sentimento depressivo que nos possam sobressaltar. Dir-se-ia que apresentou a Bíblia como uma espécie de «farmácia espiritual» (Anselm Grün).
Sucede que, sendo essencial conhecer a Bíblia, não basta conhecer a Bíblia. O Diabo – como atesta o episódio das tentações – conhece-a, mas distorce-a, instrumentalizando-a.
É, pois, um conhecimento autenticamente «diabólico».
Como sinalizou Aiden Wilson Tozer, «o Diabo conhece a Bíblia melhor que muitos de nós, mas continua a ser Diabo.
O importante não está só em conhecê-la, mas sobretudo em vivê-la».
Aceitaremos conhecer menos a Bíblia que o Diabo? E não correremos – «diabolicamente» – o risco de a deturpar sem a conhecer?
Que nunca falte a Palavra de Deus à nossa cabeceira. E que seja o Deus da Palavra a guiar-nos a vida inteira!